ConventosSantuários
Contacto
Faq
Doar agora

Getsêmani – Basílica da Agonia

Santuário

Getsemani - Basilica dell’Agonia

Acerca de Getsêmani – Basílica da Agonia

Com o termo Getsêmani indicam-se três lugares, confiados à custódia dos franciscanos, que remetem à noite em que Jesus foi traído: o Horto das Oliveiras, a Gruta do Getsêmani e a Basílica da Agonia (também chamada “Igreja das Nações”).
No Horto das Oliveiras, Jesus rezou intensamente antes da Paixão, enquanto a Gruta do Getsêmani é identificada como o lugar onde foi preso. Em memória dos acontecimentos ocorridos no jardim do Getsêmani, aos pés do Monte das Oliveiras, ergue-se hoje a Basílica da Agonia.

Mapa

Video Il luogo Storia Visita Il Getsemani nei Vangeli Ora Santa al Getsemani Romitaggio Informazioni e orari

O Monte das Oliveiras

O Monte das Oliveiras (808 m), que se eleva a leste de Jerusalém, separa a Cidade Santa do deserto da Judeia, que a partir daqui inicia a sua descida em direção ao Mar Morto.
O vale do ribeiro Cedron, que circunda Jerusalém a oriente, separa o Monte da cidade e do vizinho Monte Sião, situado mais ao sul, de onde Jesus partiu, após a Última Ceia, atravessando o vale para chegar ao Getsêmani.

Estendendo o olhar para o norte, além do Monte das Oliveiras, encontra-se o Monte Scopus (820 m), hoje sede da Universidade Hebraica. O cume do Monte das Oliveiras oferece desde sempre a vista mais sugestiva da Cidade Santa, de onde o olhar pode contemplá-la do alto em toda a sua extensão.

As oliveiras que crescem há milénios nas encostas do Monte deram-lhe o nome que ainda hoje é usado. A tradição judaica conhece-o também como “Monte da Unção”, porque com o óleo extraído das suas oliveiras eram ungidos os reis e os sumos sacerdotes. A partir do século XII, os árabes passaram a chamá-lo “Djebel et Tur”, termo de origem aramaica que significa “monte por excelência” ou “monte santo”; hoje chamam-no simplesmente “et-Tur”.

O Monte é formado por três elevações, das quais descem as íngremes vias que conduzem ao vale: de norte a sul encontra-se “Karmas-Sayyad” (vinha do caçador), com 818 m de altitude; ao centro “Djebel et Tur” (monte santo), com 808 m; a sudoeste, além da estrada que conduzia de Jerusalém a Jericó, encontra-se “Djebel Baten al-Hawa” (ventre do vento), também chamado monte do Escândalo, com 713 m de altitude.

A elevação desempenhou um papel de destaque na história judaica. Na Bíblia lê-se que o rei Davi saiu da cidade, descalço e chorando, subindo o Monte das Oliveiras para fugir do seu filho Absalão, que conspirava contra ele (2 Sm 15,30); o rei Josias destruiu os “lugares altos” construídos no Monte pelo rei Salomão para adorar as divindades das suas esposas estrangeiras (1 Rs 11,7; 2 Rs 23,13).

Após a primeira destruição do Templo de Jerusalém, os judeus começaram a ir em peregrinação ao Monte, pois, segundo a tradição, a Glória do Deus de Israel saiu da cidade e deteve-se sobre o monte que está a oriente (cf. Ez 11,23).

No período do Segundo Templo, as fogueiras acesas no cume do Monte anunciavam aos judeus da diáspora a lua nova do ano novo religioso: uma cadeia de luzes acesas nas elevações propagava o anúncio até à Babilónia (Mishná, Rosh Ha-Shaná 2,4). Também a novilha de pelo vermelho era queimada no Monte das Oliveiras: as suas cinzas, misturadas com a água da fonte de Giom, serviam para purificar quem se tornasse impuro por contacto com os mortos (Mishná, Pará 3,6–7).

A partir da conquista davídica da cidade (séc. X a.C., aprox.), muitos israelitas escolheram ser sepultados ao longo das encostas do Monte. Segundo as declarações dos profetas, o Monte será o lugar escolhido por Deus para o dia do Juízo e da ressurreição dos justos (Jl 3,4–5), quando todas as nações serão conduzidas ao vale de Josafá (vale do Cedron) (Jl 4,2) e o Senhor pousará os seus pés, fendendo o Monte em dois (Zc 14,4). Eis a razão da marcada vocação funerária do Monte. O extenso cemitério judaico, que hoje cobre grande parte das suas encostas, voltou a acolher sepulturas judaicas a partir do século XV.

O Monte das Oliveiras era passagem obrigatória para quem, como Jesus, hóspede de Lázaro e das irmãs Marta e Maria, se deslocava da aldeia de Betânia para Jerusalém: o Monte distava da cidade “o caminho de um sábado”, isto é, o número de passos permitidos pela lei judaica no dia de sábado (At 1,12).

Nas proximidades de Betfagé e Betânia, montado num jumento, Jesus iniciou a sua entrada messiânica na Cidade Santa, acolhido pelas multidões em festa (Mc 11,1–11 e par.).
O evangelista Lucas, em particular, sublinha a frequência habitual de Jesus no Monte das Oliveiras, onde se retirava para passar a noite e para ensinar os seus discípulos (Lc 22,39).

A presença assídua de Jesus no Monte torna esta elevação um dos lugares mais queridos da cristandade. Em memória da sua passagem, desde os primeiros séculos da era cristã, surgiram no cume e ao longo das encostas diversos lugares de culto, destruídos várias vezes, sobre alguns dos quais foram reconstruídas igrejas ao longo do século XX.

As principais memórias cristãs no Monte das Oliveiras referem-se aos seguintes acontecimentos da vida de Jesus:

  • o ensinamento da oração do Pai-Nosso: Eleona ou Gruta do Pai-Nosso;

  • o choro sobre Jerusalém: Dominus Flevit;

  • a aclamação na sua entrada na Cidade Santa montado num jumento: Santuário de Betfagé;

  • a oração no jardim do Getsêmani seguida da prisão: Basílica, Horto das Oliveiras e Gruta do Getsêmani;

  • a sua Ascensão ao Céu, ocorrida no cume do monte: Edícula da Ascensão.

Aos pés do Monte encontram-se ainda duas importantes memórias jerusolimitanas, estreitamente ligadas à Igreja nascente: a antiga Tumba de Maria, atestada pela versão siríaca do Transitus B.M. Virginis do século II d.C., e a Igreja de São Estêvão, construída em tempos recentes em memória do martírio do primeiro bispo de Jerusalém, apedrejado e sepultado, segundo uma antiga tradição, junto a uma rocha neste lugar.


A Gruta do Getsêmani

A Gruta do Getsêmani situa-se na base do Monte das Oliveiras e junto à Tumba de Maria. No seu interior conservam-se não apenas as mais antigas marcas de veneração dos peregrinos, ligadas à memória da Paixão de Jesus, mas também indícios do uso agrícola primitivo da gruta, talvez como local de um lagar de azeite. Os peregrinos que a visitaram entre os séculos IV e VI d.C. associavam a Gruta ao lugar da traição de Judas e da prisão de Jesus. Após a destruição da basílica cruzada do Getsêmani, a Gruta tornou-se o local onde se recordavam as três orações de Jesus, enquanto, junto às “Rochas dos Apóstolos”, sobre as ruínas da basílica cruzada, se fixou a tradição da prisão. Hoje, com o restabelecimento dos lugares sagrados, voltou a ser o espaço onde se faz memória da traição de Judas e da prisão de Jesus.


O Horto das Oliveiras

O Horto das Oliveiras, chamado também jardim pelo evangelista João, conserva segundo a tradição as seculares oliveiras que testemunharam a agonia de Jesus. Este terreno, na posse dos franciscanos desde 1681, encerra oito oliveiras entre as mais antigas do mundo, às quais se juntaram outras no século passado. As árvores, objeto de estudos recentes que confirmaram uma longevidade superior a oito séculos, já estavam ali quando a igreja cruzada foi construída e são todas descendentes de uma única planta-mãe, ainda mais antiga, talvez testemunha da oração de Jesus no jardim.


A Basílica das Nações

A Basílica da Agonia, também chamada Basílica das Nações, mas mais conhecida como Getsêmani, é o santuário que guarda a rocha nua sobre a qual se faz memória da agonia de Jesus. A estrutura moderna, consagrada em 1924, é a obra magistral do arquiteto Antonio Barluzzi e segue o perímetro da mais antiga igreja bizantina, descoberta durante os trabalhos de construção do novo santuário. Com efeito, a basílica atual ergue-se no local de duas igrejas mais antigas que foram destruídas: a mandada construir por Teodósio na época bizantina e a edificada pelos cruzados, dedicada a São Salvador.

Getsêmani nas fontes históricas

Os lugares ligados à agonia e à prisão de Jesus são recordados desde a Antiguidade.

Eusébio, no Onomasticon dos Lugares Bíblicos, menciona o Getsêmani, escrevendo que se encontra aos pés do Monte das Oliveiras, «onde agora os fiéis se apressam a fazer orações».

No final do século III, portanto, o local já era frequentado pelos cristãos, que ali manifestavam devoções particulares, recordadas também pelo Peregrino anónimo de Bordéus em 333 e por São Cirilo em 350.

É a peregrina Egéria, no final do século IV, quem fala pela primeira vez da nova igreja construída nas encostas do Monte das Oliveiras, no lugar onde Jesus rezou antes da Paixão. Trata-se da igreja «elegante», descrita pela peregrina no seu diário, juntamente com as liturgias que se realizavam ao longo do Monte a partir da tarde da Quinta-Feira Santa: depois da noite passada em oração, ao amanhecer da Sexta-Feira, a multidão de fiéis descia em direção ao Getsêmani, onde, à luz das tochas, era lido o trecho evangélico da prisão de Jesus.

Os testemunhos do final do século IV permitem situar a construção do edifício sagrado no reinado de Teodósio I (379–395 d.C.). Os anais de Eutíquio, patriarca de Jerusalém, escritos no século X, confirmam a construção da igreja por obra de Teodósio e informam sobre a sua destruição quando o persa Cosroes II, ao entrar em Jerusalém em 614, mandou demolir grande parte das igrejas e mosteiros. As escavações, que trouxeram à luz os restos da igreja bizantina, mostraram que o edifício foi atingido por um grande incêndio, talvez provocado em 614, que provavelmente causou a sua destruição.

A situação das ruínas da igreja permanece incerta até à época cruzada. O culto no local continuou, como testemunha o Lecionário Georgiano dos séculos VII–VIII. Nas Crónicas de Teófanes, o Confessor (c. 758–818), recorda-se que o califa Abd al-Malik (685–705) queria retirar as colunas da igreja do Getsêmani para as utilizar na construção da mesquita de Meca, então em edificação, mas a intervenção de um nobre cristão fê-lo desistir da intenção.

Breves informações são fornecidas por Cirilo de Citópolis na Vida de São Sabas, onde fala do «santo Getsêmani» e do ourives Rômulo, que era seu arcediácono em 532. Dois séculos depois surge o testemunho de São Willibaldo, que no seu diário de viagem regista ainda a existência de uma igreja. Se havia uma igreja no local, é provável, contudo, que já estivesse em ruínas.

As notícias retomam no início do século XII, na época cruzada: Seawulf (1102), Daniel, o abade ucraniano (1106), e também o anónimo das Gesta Francorum (c. 1100), falam de um simples oratório no Getsêmani, dedicado a São Salvador.

A reconstrução cruzada da igreja começou na segunda metade do século XII. Em primeiro lugar, os cruzados construíram no vale a abadia de Santa Maria no Vale de Josafá, sobre a Tumba da Virgem Maria. A rica abadia, confiada por Godofredo de Bulhão aos monges de São Bento, possuía convento e hospital.

Também a gruta rupestre, situada ao lado da Tumba de Maria e descrita pelo abade Daniel em 1106 como a gruta onde Jesus foi entregue por Judas por trinta moedas, foi transformada em capela pelos cruzados e decorada com um céu estrelado e cenas evangélicas.

No lugar do oratório de São Salvador, em 1165, João de Würzburg relata ter encontrado uma nova igreja dedicada ao Salvador, com três rochas distintas que recordavam a tríplice oração de Jesus no jardim. Ainda em 1172, o peregrino Teodorico conta que os arquitetos cruzados estavam empenhados na construção da igreja do Salvador. A igreja tornou-se sede espiritual da Confraria da Caridade, ordem criada para prestar assistência aos peregrinos e angariar fundos para o Hospital de Santa Maria no Vale de Josafá.

A igreja dedicada ao Salvador foi pouco depois parcialmente destruída pelos exércitos de Saladino, que em 1187 arrasaram também a abadia sobre a Tumba da Virgem, como narra Rodolfo, abade cisterciense inglês: foi poupada apenas a igreja inferior de Santa Maria no Vale de Josafá, graças à devoção islâmica à mãe do profeta Jesus.

Por meio de um restauro, conhecido graças às escavações arqueológicas, o edifício dedicado ao Salvador continuou a existir, embora privado da sua riqueza. Durante todo o Reino Latino de Jerusalém e além, a igreja permaneceu meta de peregrinação, até ao último testemunho, em 1323, de um fiel proveniente da Catalunha. A partir desse momento passou a ser venerada a rocha nua, hoje visível atrás da Basílica, com o nome de “Rochas dos Apóstolos”, em memória do lugar onde os discípulos adormeceram durante a agonia de Jesus.


As Igrejas Antigas

No outono de 1891, graças a circunstâncias fortuitas, foram descobertos os muros de uma abside e alguns fragmentos de mosaico de tesselas grosseiras, num terreno próximo ao Horto das Oliveiras.

As escavações sistemáticas tiveram início em março de 1909 e foram acompanhadas no terreno por Frei Luc Thonessen. Os resultados convenceram o padre Orfali, pioneiro da arqueologia franciscana na Terra Santa, de que se tratava dos restos da igreja do século XII, construída no local tradicional da «Agonia» e chamada nas fontes medievais igreja do «Salvador» ou da «Oração do Salvador».

Posteriormente, o arquiteto Antonio Barluzzi, encarregado da construção da igreja moderna do Getsêmani, ao escavar as profundas fundações da nova edificação, fez uma descoberta sensacional: cerca de dois metros abaixo do nível da igreja medieval conservavam-se os restos de um edifício mais antigo.

Tratava-se da igreja do Getsêmani, descrita por Egéria como «elegante», construída em época bizantina. Graças a esse achado, a Custódia da Terra Santa, por sugestão do próprio Barluzzi, projetou a nova Basílica com base na igreja mais antiga do Getsêmani.


Aquisição do Santuário

A atual propriedade franciscana do Getsêmani faz parte das aquisições realizadas pela Custódia a partir do século XVII.

Antes das escavações arqueológicas e da construção da Basílica, o terreno do Getsêmani era caracterizado por uma área onde cresciam as antigas oliveiras, enquanto o restante espaço era árido e coberto de ruínas da igreja cruzada destruída. Uma coluna, colocada sobre os restos da abside cruzada, era muito venerada pelos peregrinos: os latinos chamavam-na do «Beijo de Judas», enquanto os orientais a denominavam «Pater Imon» (Pai-Nosso), em alusão à oração de Jesus no jardim. Perto da coluna havia uma área rochosa conhecida como «Rochas dos Apóstolos», que segundo a tradição seria a pedra nua onde os Apóstolos adormeceram enquanto Jesus, um pouco mais distante, rezava.

A aquisição da área do Getsêmani, que inclui também a zona verde do outro lado da estrada, ao longo do vale do Cedron, foi uma operação longa e complexa, resumida em 29 datas que vão de 9 de novembro de 1661 a março de 1905, quando, por 57 mil francos, os arménios cederam também o terreno a sul do Horto. As propriedades da Custódia, tanto da Gruta — em posse dos franciscanos desde 1361 — como do jardim do Getsêmani, foram registadas nos arquivos imperiais otomanos em 14 de dezembro de 1903.

É singular a história da aquisição do Horto das Oliveiras, comprado graças ao dinheiro doado por dois irmãos nobres e católicos, Paulo e Tiago Grancovich, de Olovo, perto de Sarajevo. Foi possível adquirir ao todo 18 chirates (parcelas de terreno) de um total de 24. O horto pertencia a vários proprietários, mas era administrado pelo wakf da escola de Salahie, uma fundação religiosa islâmica com sede na igreja de Santa Ana, perto da porta de Santo Estêvão, à qual, desde 1662, os franciscanos pagavam anualmente uma taxa para evitar que outros comprassem os terrenos confinantes. Como cidadãos do Império Otomano, os dois irmãos puderam realizar a transação, comprando o jardim pela soma final de 200 piastras, embora o documento de aquisição registasse apenas 90.

Após a aquisição da propriedade, para proteger as oliveiras que a tradição remonta ao tempo de Jesus, os franciscanos substituíram em 1868 o muro de vedação, com cerca de um metro de altura, por outro mais alto, reconstruído novamente em 1959.

A complexa construção do primeiro muro é descrita na crónica de Frei Camilo de Rutigliano, então Secretário da Terra Santa.

Em torno do muro, em 1872, foram colocadas, no interior de nichos, 14 placas de terracota fabricadas em Nápoles com as Estações da Via-Sacra; no mesmo ano foi construída uma pequena habitação para o franciscano encarregado da guarda do local e das oito oliveiras. Em 1879, fora do recinto do horto, foi colocado um baixo-relevo de Jesus Cristo em oração entre as oliveiras, obra do artista vêneto Giovanni Torretti, doado pela família veneziana Paolucci ao então Custódio Frei Cipriano.

Também graças à exposição dessas obras, à espera da reconstrução da basílica, os franciscanos ligaram solidamente o Getsêmani à sua custódia, assegurando-o à veneração dos peregrinos por séculos futuros.


A Nova Basílica

O padre Custódio Ferdinando Diotallevi (1918–1924) é recordado, entre outras realizações, pela construção das duas basílicas do Getsêmani e do Monte Tabor. Em particular, a edificação do Getsêmani envolveu diversas figuras ativas na Palestina no início do século XX, provenientes de diferentes realidades religiosas e políticas.

A descoberta, em 1891, das antigas ruínas cruzadas da igreja do Salvador no Getsêmani lançou as bases para a construção de uma nova basílica. O desejo inicial de reconstrução teve de ser suspenso devido à presença, dentro da propriedade franciscana, da coluna do «Beijo de Judas», motivo pelo qual os ortodoxos gregos e arménios se recusavam a ceder o seu direito de passagem, que permitia aos cristãos orientais acederem e rezarem no local lembrado pela oração de Jesus no jardim.

Com o fim do apoio dos czares aos gregos, outros obstáculos surgiram entre a Custódia e a construção da nova Basílica do Getsêmani. O principal foi a intenção, expressa pelo arcebispo de Toulouse, mons. Jean-Augustin Germain, de construir no Monte das Oliveiras um grande «Templo Nacional Francês», dedicado ao Sagrado Coração de Jesus. Por conselho da Propaganda Fide, o Custódio Diotallevi escreveu ao arcebispo para o dissuadir e convidá-lo a apoiar a reconstrução da basílica franciscana do Getsêmani.

Entretanto, a Custódia realizou todas as operações necessárias para iniciar o projeto: confiou o desenho da nova basílica ao engenheiro romano Antonio Barluzzi e conseguiu, não sem dificuldade, obter o consentimento dos gregos para transferir a coluna do «Beijo de Judas» para fora das fundações da igreja medieval. Apesar das dificuldades económicas da Custódia, o Ministro Geral da Ordem, Serafino Cimino, assegurou a Diotallevi que não faltaria apoio financeiro para a construção dos novos santuários.

Em 17 de outubro de 1919, o cardeal Filippo Giustini, protetor da Ordem dos Frades Menores e legado papal na Palestina, por ocasião do sétimo centenário da fundação da Custódia da Terra Santa, lançou a primeira pedra do novo santuário do Getsêmani.

Apesar do apoio do papa Bento XV ao projeto da Custódia, o arcebispo Germain de Toulouse não desistiu da ideia de construir uma igreja no Monte das Oliveiras. O terreno que conservava os restos considerados da basílica constantiniana da Eleona, atual Pater Noster, fora doado ao Estado francês: ali deveria erguer-se a grande igreja, cuja primeira pedra foi colocada em 2 de janeiro de 1920. Os britânicos, potência mandatária na Palestina, não viam com bons olhos essas iniciativas francesas, que insistiam na supremacia do protetorado francês nos territórios palestinianos. A construção, fortemente contestada, acabou por não se concretizar: sete anos depois, os trabalhos foram definitivamente suspensos por falta de fundos.

O governador britânico de Jerusalém, Ronald Storrs, também não manifestou apoio ao projeto franciscano, por razões ligadas à sua fé protestante e ao seu gosto estético. Vontade contrária à Custódia foi igualmente expressa pelo alto-comissário Herbert Samuel, que ordenou a suspensão dos trabalhos em 19 de julho de 1920. Entretanto, a sensacional descoberta das «fundações intactas» da igreja da segunda metade do século IV, vista por Egéria e destruída pelos persas, manteve viva a esperança da Custódia. Parecer favorável à continuação das escavações foi dado pelo prof. John Garstang, diretor do Departamento Palestiniano de Antiguidades.

Essa descoberta causou grande agitação entre os gregos que, em outubro de 1920, devido a uma abertura feita no muro que delimitava a propriedade franciscana do Getsêmani, recorreram ao Governo mandatário e se opuseram com novos confrontos violentos. As obras foram suspensas e a mediação pouco hábil do patriarca latino Barlassina não ajudou. Os gregos chegaram mesmo a reivindicar direitos de propriedade sobre o Getsêmani e sobre a futura basílica.

Um mês e meio depois, graças às ações diplomáticas do Custódio, os trabalhos no Getsêmani foram retomados. A construção de um muro de delimitação e a abertura de uma nova porta reacenderam a reação dos gregos que, armados com bastões, se dirigiram ao Getsêmani e destruíram o que havia sido realizado até então, com a intenção de ocupar o terreno. Após horas de tensão, chegou-se a um acordo que permitiu aos franciscanos prosseguir as escavações sob a supervisão do Departamento de Antiguidades. Os obstáculos foram-se dissipando gradualmente, também devido às divisões internas entre os gregos, que então não estavam unidos em torno do patriarca Damianos, considerado demasiado conciliador perante os britânicos e, no caso do Getsêmani, perante os franciscanos.

As licenças de construção da Basílica, segundo o novo projeto de Barluzzi, chegaram apenas em 6 de janeiro de 1922 e permitiram a deslocação definitiva da coluna do «Beijo de Judas» para o muro exterior da propriedade franciscana, de modo a permitir aos fiéis ortodoxos venerá-la. No ano seguinte, qualquer «servidão» ou direito dos gregos sobre a propriedade franciscana foi extinto por acordo bilateral. Por fim, também graças ao nascimento da revista Terra Santa, que divulgou a causa do Getsêmani, não tardou o apoio económico de numerosas ofertas provenientes de muitos países católicos, razão pela qual a basílica passou a ser chamada “Igreja de todas as Nações”.

Graças ao rápido trabalho de cerca de quatrocentos operários, a inauguração do Getsêmani teve lugar em 15 de junho de 1924, na presença de numerosas autoridades eclesiásticas e civis. Além disso, para permitir ao Custódio Diotallevi presidir à inauguração das basílicas do Getsêmani e do Tabor, foi-lhe concedida uma prorrogação de seis meses do seu cargo, além dos seis anos já cumpridos.


A Posse da Tumba de Maria e da Gruta

Um firman de 1636 declara que os religiosos franciscanos possuíam a Tumba de Maria desde tempos antigos. Em 1361 e 1363, de facto, tanto a rainha Joana de Nápoles como Pedro IV de Aragão intercederam junto do sultão mameluco do Egito para que a Tumba de Maria fosse concedida aos franciscanos. A intervenção teve êxito: nos Estatutos da Terra Santa de 1377 prescreve-se que os frades celebrem todos os sábados a Santa Missa junto à Tumba da Virgem, celebrações recordadas também em 1384 pelo peregrino italiano Giorgio di Guccio Gucci.

A posse da Tumba de Maria pelos franciscanos e o seu direito exclusivo de nela celebrar diariamente a Santa Missa foram reiterados em decretos dos sultões otomanos até 1847, mas definitivamente anulados poucos anos depois por um firman de 1853, visto que, de facto, já não conseguiam celebrar ali.

Com efeito, em 1757 muitos santuários foram tomados à força pelos gregos ortodoxos, entre os quais a Tumba de Maria, que nunca mais foi devolvida. Este acontecimento limitou a presença franciscana no local e a intervenção da Rússia, em favor dos gregos ortodoxos, impediu de facto o restabelecimento dos direitos dos franciscanos.

Hoje, a Tumba da Virgem é guardada pelos ortodoxos gregos e arménios e constitui, juntamente com Belém, o Santo Sepulcro e a Ascensão, o quarto Lugar Santo regulado pelo Status Quo. O Status Quo estabelece que os franciscanos podem ali dirigir-se solenemente em procissão apenas uma vez por ano, na festa da Assunção da Bem-Aventurada Virgem Maria, a 15 de agosto.

Ao contrário da Tumba de Maria, a Gruta da Traição, situada à direita da entrada da Tumba, permaneceu com os franciscanos. Tal como a Tumba, a presença dos frades remonta ao século XIV. Em 1803, obtiveram do sultão Selim III a permissão para colocar uma porta na entrada e possuir a respetiva chave, o que permitiu a manutenção do local de oração.


A Escavação na Gruta do Getsêmani
outubro de 1956 – março de 1957

Na sequência de uma violenta inundação ocorrida em 23 de novembro de 1955, a Custódia da Terra Santa iniciou trabalhos de restauro na Gruta da Traição. Foi a ocasião para o padre Virgilio Corbo estudar o ambiente e realizar descobertas importantes. Os estudos, publicados em 1965, esclareceram as várias transformações ocorridas ao longo do tempo.

No tempo de Jesus, várias grutas naturais compunham a paisagem do Monte das Oliveiras, considerando que também a própria Tumba da Virgem, situada ao lado, era originalmente uma gruta.
A entrada primitiva da gruta situava-se na parede norte, à direita do acesso atual, e o interior era constituído pela parte central do ambiente atual, unida à zona onde hoje se encontra o altar-mor, e por uma segunda gruta a sul, reaberta durante os trabalhos. A abóbada era sustentada por quatro pilares de rocha natural, dos quais hoje restam três.

A gruta dispunha de um reservatório de água: uma cisterna no canto noroeste, à direita da entrada atual, ligada a uma pequena bacia onde, por meio de um sistema de canaletas, as águas pluviais eram recolhidas e decantadas antes de serem armazenadas.

Segundo o padre Corbo, na depressão a leste, onde se encontra o altar atual, existiria um lagar de azeite. Uma cavidade na parede, ainda visível, teria alojado o braço do lagar. Além disso, a água na gruta teria servido para reduzir a densidade do azeite e facilitar o seu escoamento para as zonas de recolha. As dimensões reduzidas do espaço, porém, colocam essa hipótese em dúvida.

A partir provavelmente do século IV, a gruta foi transformada em igreja rupestre e assumiu rapidamente uma vocação funerária. Foi criado um tipo de deambulatório ao longo das paredes sul e oeste, e a luz entrava por um óculo. A construção da igreja da Tumba de Maria, no final do século IV, obstruiu o acesso original, que foi deslocado para noroeste.

A partir do século V, numerosas sepulturas foram abertas no interior. Também nas paredes da cisterna foram escavadas tumbas em arcosólio e o pavimento foi estruturado com muretes formando diversos lóculos funerários, recobertos por mosaico com inscrição, visível à direita da entrada atual, do qual restam duas palavras de uma invocação em grego: “KE ANAPAUS(ON)”, «Senhor, concede o repouso».

A necrópole, obtida cortando o pavimento musivo de tesselas brancas, era composta por 42 sepulturas, datáveis da época bizantina à cruzada, com alguns casos de reutilização posterior. Diversas inscrições funerárias foram encontradas, algumas em língua grega e outras em caracteres cúficos. O único espaço preservado das sepulturas é o do presbitério, onde ainda hoje se encontra o altar. Não faltam na gruta grafites deixados pelos fiéis na abóbada, em época bizantina.

Durante o período cruzado, a gruta foi embelezada com pinturas na abóbada, das quais subsistem vestígios de estrelas e do ciclo evangélico, acompanhados por uma inscrição pintada com versículos evangélicos. As repetidas inundações e o abandono causaram danos significativos aos rebocos. Com base nas descrições do peregrino João de Würzburg e em estudos iconográficos, supõe-se que o ciclo pictórico do presbitério, do qual restam apenas fragmentos de vestes, auréolas e uma asa de anjo, fosse composto por três cenas: a oração de Cristo no Jardim, Cristo com os Apóstolos e o Anjo que consola o Salvador.

Um restauro recente da abóbada, realizado por ocasião do Jubileu do ano 2000, limpou os rebocos, permitindo observar, por cima das pinturas, os numerosos grafites deixados pelos peregrinos durante e após a época cruzada.

O acesso atual sofreu modificações, mas corresponde substancialmente ao aberto em 1655, entre os dois muros de contenção dos terraços superiores.

O Horto das Oliveiras

A ideia comum de quem visita pela primeira vez a Terra Santa é que o Horto das Oliveiras, chamado nos Evangelhos também de “jardim”, seja uma ampla extensão de terra rica em plantas e flores, imersa na tranquilidade da natureza e isenta da confusão da Cidade Santa. Mas, se no tempo de Jesus boa parte do Monte das Oliveiras devia estar efetivamente coberta de plantas e cultivos, hoje a situação geral já não é exatamente a mesma. Ainda assim, o pequeno terreno com poucos olivais seculares permanece como um dos ambientes naturais mais fiéis à Jerusalém de dois mil anos atrás.

Jesus retirava-se para esses terrenos cultivados para passar a noite e rezar. E naquela noite de quinta-feira, depois da Última Ceia e antes da prisão, retirou-se ali com os discípulos. Como narram os Evangelhos sinóticos, foi nesse lugar que Jesus experimentou a mais profunda angústia, decidindo confiar-se, em total abandono, à vontade do Pai.

O Horto das Oliveiras encontra-se a leste do vale do Cedron, no cruzamento do caminho que sobe ao Dominus Flevit com a movimentada Jericó Road. Situado à entrada do santuário do Getsêmani, o jardim ocupa uma área de cerca de 1.200 m². Uma grade permite aos peregrinos circular ao redor das oliveiras seculares e, ao mesmo tempo, protege-as do grande número de visitantes.

Ao lado das oito árvores mais antigas, foram plantadas novas oliveiras que substituíram os ciprestes e as diversas plantas florais que, no século XIX, eram usadas para as decorações florais do Santo Sepulcro.

As oliveiras antigas, de troncos ocos e retorcidos, possuem um diâmetro superior a 3 metros. Estudos muito recentes comprovaram a perfeita saúde das árvores e dataram a parte aérea no século XII. Mas o dado mais surpreendente, revelado pelas pesquisas, é a fraternidade das oito oliveiras: elas possuem o mesmo DNA, o que significa que provêm de estacas, isto é, ramos cortados e enxertados, pertencentes a uma mesma planta-mãe. Isso leva a pensar que uma oliveira específica tenha sido escolhida deliberadamente, talvez considerada testemunha da noite da agonia de Jesus. As plantas mais antigas do horto, portanto, chegaram intactas desde a época das Cruzadas, sobrevivendo à destruição da igreja e aos anos de abandono, que terminaram em 1681, quando os Padres Franciscanos entraram oficialmente na posse do terreno.

É interessante o testemunho do peregrino Giorgio Cucci, que em 1384 descreve as oliveiras do horto como “antiquíssimas”, “numerosas e belas”. Caminhando ao longo da cerca do horto, é possível ver também a oliveira plantada por Paulo VI em 4 de janeiro de 1964, durante a sua peregrinação à Terra Santa.

Todos os anos, do Horto das Oliveiras parte a procissão da Quinta-Feira Santa, conduzida pelo Custódio franciscano: ao cair da noite, fiéis e peregrinos reúnem-se no Getsêmani para vigiar em oração durante a Hora Santa e, em seguida, dirigem-se ao Gallicantu, onde Jesus passou a noite no cárcere.

Para o cuidado do olival colaboram alguns voluntários que vêm de todo o mundo para ajudar os frades da Custódia, sobretudo no período da colheita e da poda.


A fachada e o pórtico da Basílica

No topo de uma monumental escadaria ergue-se a Basílica, voltada para o vale do Cedron, exatamente em frente à antiga Porta Dourada, que se abre ao longo das muralhas ameadas de Jerusalém.

O átrio da Basílica é formado por três grandes arcadas de volta perfeita, sustentadas por pilares ladeados por colunas monolíticas, decoradas com capitéis coríntios que recordam os da igreja bizantina original. Sobre a cornija, em correspondência com as colunas, elevam-se as estátuas dos quatro evangelistas, modeladas por Tonnini.

A atenção do visitante é atraída pelo majestoso mosaico do frontão, executado com brilhantes tesselas coloridas sobre fundo dourado. O tema, idealizado por Giulio Bargellini e realizado pela empresa Monticelli em 1930, é um hino a Jesus, representado como mediador entre Deus e a humanidade. A humanidade está dividida em dois grupos: à esquerda, o dos sábios que choram seus limites; à direita, o dos simples e aflitos. Ambos se inclinam em oração diante de Jesus, que recolhe as súplicas de toda a humanidade com os braços abertos e, levantando o olhar, as devolve ao Pai, princípio e fim de todas as coisas. Um anjo, à direita de Jesus, recebe o seu coração carregado dos sofrimentos dos homens. Abaixo da cena, um versículo da Carta aos Hebreus acompanha e esclarece o sentido teológico do mosaico:
“PRECES SUPPLICATIONESQUE CUM CLAMORE VALIDO ET LACRYMIS OFFERENS EXAUDITUS EST PRO SUA REVERENTIA”
(“Ofereceu preces e súplicas com fortes clamores e lágrimas; por sua reverência foi atendido”: cf. Hb 5,7).

O maciço portal de entrada da Basílica, obra do engenheiro Pietro Adelchi Ricci, foi realizado graças à contribuição econômica do padre Giovanni Gramiccia, Comissário Geral da Terra Santa, e de benfeitores napolitanos.

Trata-se da última obra do artista, falecido por doença em Amã aos apenas 30 anos. Durante a sua permanência em Jerusalém, onde foi assistente de Barluzzi, Ricci teve a oportunidade de estudar a nova construção e as intenções dos diversos artistas que nela colaboraram.

O portal, realizado apenas em 1999 e em formas mais simples do que o projeto original, foi modelado pelo escultor Tonnini. Representa a árvore da vida com quatro ramos que encerram os símbolos dos evangelistas. Nos quatro cartuchos estão gravados, em latim, os trechos dos Evangelhos que narram a agonia de Jesus. Aos pés da árvore está cinzelado o brasão da Custódia, com a cruz da Terra Santa e os dois braços cruzados, de Jesus e de São Francisco, que trazem nas palmas das mãos, respectivamente, os sinais das chagas da crucificação e dos estigmas.

Depois de atravessar o portal, uma sugestiva oliveira de bronze, do artista S. Gabai, com ramos retorcidos e nodosos como as oliveiras centenárias do horto sagrado, decora o vidro da entrada. A forte luz do sol penetra no interior da igreja através dos ramos da árvore, representação daquelas oliveiras que foram mudas testemunhas da agonia de Jesus.


A Basílica do Getsêmani

O interior da Basílica, marcado por duas fileiras de seis colunas rosadas que sustentam as doze abóbadas uniformes, retoma, em dimensões maiores, a igreja teodosiana, de planta basilical com três naves terminadas em ábsides semicirculares.

No projeto de Barluzzi, tudo concorre para evocar a cena noturna daquela quinta-feira de Páscoa, quando, entre os ramos das oliveiras e à luz da lua, Jesus sofreu a agonia e o abandono à vontade do Pai.

A luz no interior da Basílica foi concebida pelo arquiteto como elemento característico: a penumbra interna, em forte contraste com a luminosidade branca do exterior, é obtida intencionalmente graças aos vidros opalescentes de tons violáceos das janelas que ritmam as paredes da igreja. Os diversos tons de violeta filtram-se através dos recortes geométricos, desenhando o motivo da cruz.

A ambientação noturna criada no interior da Basílica é reforçada pelos mosaicos das doze abóbadas, onde, sobre um fundo azul-escuro, brilha o céu estrelado enquadrado entre ramos de oliveira. No centro de cada abóbada são representados diversos motivos que evocam a paixão e a morte de Jesus, juntamente com o brasão da Custódia da Terra Santa. Para recordar todas as nações que contribuíram para a realização da Basílica, seus emblemas foram reproduzidos nas cúpulas e nos mosaicos da abside. Começando pela abside da nave esquerda, são lembradas a Argentina, o Brasil, o Chile e o México; na nave central, a Itália, a França, a Espanha e a Inglaterra; na nave direita, a Bélgica, o Canadá, a Alemanha e os Estados Unidos. Graças a essa colaboração internacional, a igreja é também chamada de “Basílica das Nações”.

Para a decoração do pavimento, o arquiteto teve a moderna intuição de reproduzir os mosaicos e a planta da antiga basílica teodosiana sobre a qual foi elevada a atual. As faixas de pedra cinza seguem o perímetro das muralhas da igreja bizantina, ladeadas por uma faixa de mármores brancos e pretos em zigue-zague que indica a posição das canaletas de escoamento das águas pluviais que desembocavam na cisterna. Graças aos restos de mosaico encontrados nas escavações, o artista Pietro D’Achiardi reconstruiu o desenho geométrico do pavimento do século IV. Percorrendo a basílica, encontram-se diversos trechos cobertos por placas de vidro que permitem observar as tesselas do pavimento original. Enquanto nas naves laterais a fiel recomposição do mosaico antigo apresenta quadros com motivos geométricos, delimitados por molduras de fitas entrelaçadas, na nave central foi executado um novo desenho que leva em consideração as cores das tesselas do antigo mosaico. O novo mosaico baseia-se nos motivos tradicionais da arte bizantina do século IV: uma borda de volutas de folhas de acanto com flores e pássaros sobre fundo negro enquadra o sóbrio painel central, onde está representada, dentro de um entrelaçado, a cruz estilizada com o monograma chamado constantiniano, símbolo já usado pelos primeiros cristãos, que nasce do entrelaçamento das letras gregas X e P, “chi” e “rho”, abreviação de “Christós”.

Ao entrar na basílica, o olhar é atraído pela cena da agonia de Jesus representada na abside central. A composição, idealizada pelo mestre Pietro D’Achiardi, é intencionalmente simples e realizada com formas estilizadas, com o objetivo de ajudar o observador a aproximar-se da humanidade de Jesus, da tristeza do Homem-Deus que escolhe livremente confiar-se à vontade do Pai.

No centro da cena está Jesus, prostrado sobre as rochas que o sustentam, no cenário noturno do Horto das Oliveiras. Os três apóstolos que foram tomados pelo sono “por causa da tristeza”, como narra o evangelista Lucas, aparecem pouco distantes, atrás das oliveiras. A escura abóbada celeste acentua a ambientação noturna, onde resplandece do alto o anjo que desce para confortar Jesus. A cena representada é a do relato do evangelista Lucas, do qual são transcritos em latim os versículos mais densos de significado:
“APPARUIT AUTEM ILLI ANGELUS DE COELO CONFORTANS EUM. ET FACTUS IN AGONIA PROLIXIUS ORABAT. ET FACTUS EST SUDOR EIUS SICUT GUTTAE SANGUINIS DECURRENTIS IN TERRAM”
(“Apareceu-lhe então um anjo do céu para confortá-lo. Em agonia, orava com mais insistência, e o seu suor tornou-se como gotas de sangue que caíam por terra”, Lc 22,43-44). O Comissariado húngaro financiou a realização do mosaico, razão pela qual o brasão nacional se encontra na base da obra juntamente com os da Custódia da Terra Santa.

Os mosaicos das duas absides laterais são obra de Mario Barberis. Apesar da diversidade compositiva e artística em relação ao central, o uso da mesma gama cromática e da ambientação noturna no Horto das Oliveiras confere ao conjunto uma boa unidade.

Na abside da nave esquerda é representado o beijo, descrito por Mateus e Lucas, com o qual Judas traiu Jesus: esse era o sinal combinado com as guardas e os sumos sacerdotes para identificá-lo. Jesus é abraçado por Judas no centro da cena, enquanto os apóstolos, coroados por auréolas, estão à esquerda e as guardas, iluminando-se com uma tocha, à direita (Mt 26,30; Lc 22,48). O brasão da Irlanda, que financiou a obra, encontra-se no canto inferior direito.

Na abside da nave direita, o mosaico de Barberis retrata a cena narrada no Evangelho de João, conhecida como “EGO SUM”, isto é, “Eu sou”. É a resposta que Jesus deu às guardas que procuravam o Nazareno e que as fez recuar e cair por terra (Jo 18,6). Os apóstolos, à esquerda, são representados por Pedro, Tiago e João, enquanto Pedro segura um punhal pronto para defender o seu Senhor. À direita, as guardas estão agitadas e algumas caídas por terra. No centro, Jesus mantém os braços abertos em sinal de acolhida do seu destino e está envolto em luz, sublinhando o poder da sua palavra, que faz cair por terra as guardas. A Polônia, que assumiu os custos da obra, está representada no brasão no canto inferior direito.

O fulcro da Basílica é constituído pela rocha nua, deixada exposta à veneração, prática comum em muitos Lugares Santos e testemunhada desde a antiguidade. Com efeito, certamente desde o século XIV, os peregrinos ao Getsêmani tinham o costume de prostrar-se diante das “Rochas dos Apóstolos”, onde Pedro, Tiago e João teriam adormecido durante a agonia de Jesus, e que ainda hoje se encontram no exterior da Basílica, na área posterior. Mas esse tipo de veneração já devia existir, pois, ao que parece, tanto na igreja bizantina quanto na cruzada, a rocha nua foi deixada à vista no interior do edifício, para que os fiéis pudessem tocar aquela mesma pedra, testemunha do suor de sangue e dos sofrimentos de Jesus.

Ainda hoje os peregrinos podem ajoelhar-se diante da rocha, junto ao presbitério, além de uma balaustrada que imita as paleocristãs. A rocha, que após quase um século de veneração começa a mostrar sinais do culto, está envolvida por uma coroa de espinhos entrelaçados em ferro forjado e prata, com cerca de 30 cm de altura e levemente inclinada para o interior. A obra do artista Alberto Gerardi é completada por duas pombas moribundas em prata, que decoram os cantos, e por três cálices dos quais bebem duas pombas, um em cada lado da grade: a simbologia da obra alude à Paixão de Cristo e ao seu martírio.

Junto às absides vê-se a rocha natural, com a antiga talha, sobre a qual se apoiam as muralhas da basílica. Ainda se podem observar algumas pedras da basílica teodosiana encontradas durante as escavações arqueológicas: uma na abside direita e duas na esquerda, que conservam vestígios do antigo canal de escoamento das águas pluviais.


Os restos da Igreja Cruzada

Após ultrapassar o pórtico da Basílica, no lado sul, são visíveis as ruínas da antiga basílica cruzada dedicada ao Salvador, do final do século XII. Foram os primeiros vestígios encontrados no final do século XIX e escavados pelos franciscanos a partir de 1909. A igreja foi construída sensivelmente girada para o sul em relação à anterior bizantina e tinha dimensões maiores. Era de três naves, com pilares cruciformes e absides semicirculares. Um restauro posterior substituiu os pilares por maciços pedestais octogonais.

As escavações e a posterior construção da Basílica moderna provocaram o rebaixamento dos níveis originais da igreja: hoje é possível observar facilmente as robustas paredes laterais, mas não o pavimento, removido durante as obras. O afloramento rochoso, que se eleva em direção às absides, devia emergir do pavimento e permanecer visível também no período cruzado.

Como testemunho da riqueza decorativa da igreja resta apenas um fragmento de afresco com o rosto de um anjo, hoje conservado no museu arqueológico do Studium Biblicum Franciscanum, junto ao Convento da Flagelação. Ao lado do rosto do anjo há uma auréola com cruz gemada, atribuída à figura de Cristo. As interpretações da cena são duas: a da agonia descrita por Lucas, na qual um anjo aparece a Jesus para confortá-lo, e a de uma majestade com Cristo sentado em trono, cercado pelos arcanjos.

Nem todos os restos de colunas e capitéis espalhados nos arredores pertencem à igreja bizantina e cruzada do Getsêmani, pois neste local também se conservam colunas da Anástasis da igreja do Santo Sepulcro, muito danificadas e por isso substituídas durante o restauro do século XX.


Gruta do Getsêmani

A gruta, comumente chamada do Getsêmani — termo aramaico que indicava o lugar do lagar —, encontra-se à direita do Túmulo da Virgem e abre-se ao final de um corredor. A tradição, desde o século IV, situa aqui a traição de Judas. Após a agonia no Horto das Oliveiras, Jesus foi ao encontro dos apóstolos que permaneciam na gruta, e ali Judas o alcançou acompanhado pelas guardas.

Os franciscanos entraram na posse desse lugar em 1361 e, diferentemente do Túmulo de Maria, ainda detêm a sua propriedade. Após uma inundação ocorrida em 1955, a Custódia da Terra Santa, por meio do padre Virgilio Corbo, realizou escavações que permitiram estudar a estrutura da gruta e fazer interessantes descobertas sobre as diversas fases da sua história.

A gruta, que mede cerca de 19 x 10 metros, com altura de aproximadamente 3,5 metros, manteve sempre um aspecto bastante natural, apesar das várias transformações. Inicialmente era um espaço de uso agrícola, com cisternas e canais de água e talvez um lagar; a partir do século IV tornou-se uma igreja rupestre de caráter funerário; na época das Cruzadas foi decorada com uma abóbada pintada com estrelas e cenas evangélicas.

A partir da entrada, aberta após uma inundação que em 1655 tornou impraticáveis os acessos anteriores, descem-se alguns degraus que conduzem ao interior da gruta. A abóbada rochosa e rebocada, em parte natural e em parte talhada artificialmente, é sustentada por pilares de rocha ou de alvenaria. Por ocasião do Ano Jubilar de 2000, foi realizado um restauro da abóbada pintada na época das Cruzadas: vieram à luz restos de afrescos e numerosos grafites deixados pelos peregrinos. As três pinturas enquadradas, que representam a oração de Jesus no jardim, Cristo com os apóstolos e o anjo que consola o Salvador, fazem parte da decoração cruzada da abóbada.

Uma inscrição em língua latina, composta de três linhas com letras capitais brancas sobre fundo vermelho e negro, está pintada na abóbada, à direita do presbitério. A tradução proposta é: “Aqui o Rei Santo suou sangue. O Senhor e Cristo frequentou muitas vezes estes lugares. Pai meu, se queres, afasta de mim este cálice”. Provavelmente outras inscrições semelhantes separavam as cenas representadas, com a finalidade de descrevê-las.

Os quadros, executados em afresco, são obra do artista Umberto Noni. O que se encontra atrás do altar tem como tema a oração cotidiana de Jesus entre os apóstolos, ambientada no interior de uma gruta, como a do Getsêmani.

De costas para o altar, à esquerda das escadas de acesso, pode-se observar parte da antiga cisterna, inicialmente utilizada como reservatório de água e depois transformada em sepulcro na época bizantina. Uma abertura no pavimento permite ver parte do fundo da cisterna, com o piso dividido por simples muretas em pelo menos cinco túmulos. No interior da cisterna, na parede sul, foi escavado um túmulo em arcosólio. A entrada bizantina da gruta situava-se desse lado, acima da cisterna. Por uma abertura quadrangular deixada na base do muro, veem-se os degraus que, pelo lado norte, conduziam ao sepulcro. Em frente à entrada que, na época bizantina, levava à gruta, conserva-se um fragmento de mosaico de pavimento em tesselas brancas com uma inscrição grega em tesselas vermelhas, contornada por um quadro negro. Trata-se de uma inscrição funerária, da qual resta a primeira linha: “KE ANAPAUS(ON)”, “Senhor, concede o repouso”.


Novas pesquisas no Jardim das Oliveiras

Em 2009 foi iniciada uma investigação sobre o estado de saúde das antigas oliveiras do Horto sagrado. Os resultados, divulgados em 2012, lançaram luz também sobre um tema muito debatido: a idade das plantas.

A pesquisa foi conduzida por uma equipe de profissionais e pesquisadores do Conselho Nacional de Pesquisas (CNR), juntamente com várias universidades italianas, coordenados pelos professores Giovanni Gianfrate e Antonio Cimato.

As investigações reconheceram às plantas, além de um excelente estado de saúde, uma idade de cerca de 900 anos, fazendo remontar à época das Cruzadas a parte aérea das oliveiras, isto é, o tronco e as copas. Mas a descoberta mais singular veio da análise do DNA: as oito oliveiras apresentam o mesmo perfil genético, ou seja, pertencem ao mesmo “genótipo”, uma única árvore da qual foram retirados ramos de diferentes espessuras para serem plantados no jardim.

Parece, portanto, verossímil que, juntamente com a construção da Basílica, os cruzados tenham reorganizado o jardim com o objetivo de “multiplicar”, dentro de um espaço sagrado, uma árvore em particular, talvez porque antiga e venerada em referência à oração de Jesus no Getsêmani, do mesmo modo como ainda hoje se veneram as oliveiras.

A sacralidade do Horto, graças aos novos resultados, adquire maior força: as oliveiras são verdadeiramente testemunhas da fé profundamente enraizada da comunidade cristã de Jerusalém, que, juntamente com tantos peregrinos, não se cansa de anunciar a Ressurreição de Cristo ao mundo inteiro.


Getsêmani: projeto de restauro dos mosaicos

Um projeto para conservar a Basílica do Getsêmani e formar os restauradores e mosaicistas do futuro.

O projeto
A intervenção de restauro e conservação foi realizada graças à coordenação da Associação Pro Terra Sancta e do Mosaic Center de Jericó, com a supervisão científica de uma comissão específica do Studium Biblicum Franciscanum.

Os objetivos:

  • Conservar e restaurar, do ponto de vista arquitetônico e artístico, um dos Lugares Santos mais importantes de Jerusalém e de toda a Terra Santa.

  • Formar jovens de Jerusalém por meio de um curso prático de restauro de mosaicos.

  • Aumentar a consciência da população local e de toda a comunidade internacional sobre o valor histórico e cultural deste Lugar.

As atividades:

  • Documentação e limpeza dos mosaicos que revestem as abóbadas internas e a fachada externa da Basílica.

  • Recuperação do teto da Basílica, do pavimento e de todas as partes danificadas, internas e externas.

  • Realização de cursos práticos de restauro de mosaicos para jovens de Jerusalém, ministrados por especialistas locais do Mosaic Center de Jericó.

  • Organização de atividades e visitas à Basílica para jovens das escolas de Jerusalém.

Graças ao restauro realizado na Basílica do Getsêmani, os muitos peregrinos que chegam à Terra Santa podem agora continuar a visitar e celebrar em um dos Lugares Santos mais importantes de Jerusalém. Ao mesmo tempo, a comunidade local foi envolvida na preservação do patrimônio histórico e artístico desta cidade, formando restauradores e mosaicistas e fortalecendo o vínculo dos jovens locais com o seu território, tão rico de história.

Evangelho segundo Mateus (26,36–56)

Introdução

O horto do Getsêmani, o lugar do lagar, é indicado por Mateus e Marcos como o local onde começa verdadeiramente o drama da Paixão de Jesus. A fragilidade humana daquele momento de tristeza e angústia é marcada pela oração de Jesus, que por três vezes suplica ao Pai que “afaste o cálice”. A imagem do cálice aparece nos Salmos, em sentido figurado, para indicar a vontade de Deus (Sl 16,5; 23,5; 116,13) e, nos Profetas, é associada à sua ira e ao seu juízo (Is 51,17; Jr 25,15.28; Ez 23,32–33).

Aos discípulos adormecidos, Jesus recorda a necessidade de rezar para não “cair em tentação”. Este ensinamento encontra-se também na oração do Pai-Nosso, para que o Pai não abandone os seus filhos no momento da tentação, mas lhes conceda a força para a vencer.

Mateus narra a saudação de Judas seguida do beijo: tratava-se de uma forma habitual de cumprimento entre os povos orientais e indicava uma relação estreita de amizade. A essa amizade Jesus não se esquiva e chama o próprio Judas de “amigo”. Na redação de Mateus encontra amplo espaço também a reação de Jesus contra um dos discípulos que, tendo desembainhado a espada, corta a orelha do servo do sumo sacerdote. Jesus condena o gesto por duas razões: por um lado, a exaltação da não violência e do perdão; por outro, a certeza de que a sua prisão faz parte do desígnio que Deus traçou e confiou às Escrituras dos profetas.

Texto

36 Então Jesus foi com eles a um lugar chamado Getsêmani e disse aos discípulos: “Sentai-vos aqui, enquanto eu vou ali rezar”.
37 E, levando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a sentir tristeza e angústia.
38 Disse-lhes então: “A minha alma está triste até à morte; ficai aqui e vigiai comigo”.
39 E, avançando um pouco, caiu com o rosto por terra e orava, dizendo: “Meu Pai, se é possível, afasta de mim este cálice! Contudo, não seja como eu quero, mas como tu queres”.
40 Voltando para os discípulos, encontrou-os a dormir e disse a Pedro: “Então não fostes capazes de vigiar comigo uma só hora?
41 Vigiai e rezai, para não entrardes em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca”.
42 Afastou-se pela segunda vez e orou, dizendo: “Meu Pai, se este cálice não pode passar sem que eu o beba, faça-se a tua vontade”.
43 Voltou de novo e encontrou-os a dormir, pois os seus olhos estavam pesados.
44 Deixando-os, afastou-se outra vez e orou pela terceira vez, repetindo as mesmas palavras.
45 Depois aproximou-se dos discípulos e disse-lhes: “Dormide agora e descansai! Eis que chegou a hora, e o Filho do Homem vai ser entregue às mãos dos pecadores.
46 Levantai-vos, vamos! Eis que aquele que me trai está próximo”.

47 Enquanto ainda falava, chegou Judas, um dos Doze, e com ele uma grande multidão armada de espadas e paus, enviada pelos chefes dos sacerdotes e pelos anciãos do povo.
48 O traidor tinha-lhes dado este sinal: “Aquele que eu beijar é ele; prendei-o”.
49 Aproximando-se imediatamente de Jesus, disse: “Salve, Mestre!” E beijou-o.
50 Jesus, porém, disse-lhe: “Amigo, a que vieste?”. Então aproximaram-se, lançaram as mãos sobre Jesus e prenderam-no.
51 Um dos que estavam com Jesus puxou da espada, feriu o servo do sumo sacerdote e cortou-lhe a orelha.
52 Então Jesus lhe disse: “Embainha a tua espada, pois todos os que lançam mão da espada, pela espada morrerão.
53 Ou pensas que eu não posso pedir a meu Pai, que imediatamente me enviaria mais de doze legiões de anjos?
54 Mas como se cumpririam então as Escrituras, segundo as quais assim deve acontecer?”.
55 Naquele momento, Jesus disse à multidão: “Saístes com espadas e paus para me prender, como se eu fosse um ladrão. Todos os dias eu me sentava no templo para ensinar, e não me prendestes.
56 Mas tudo isto aconteceu para que se cumprissem as Escrituras dos profetas”. Então todos os discípulos o abandonaram e fugiram.

(Os textos bíblicos são da Bíblia CEI 2008)


Evangelho segundo Marcos (14,32–52)

Introdução

O evangelista Marcos narra a noite de angústia e de intensa oração de Jesus, que o levou ao abandono definitivo à vontade do Pai, seguida pela traição de Judas. Marcos sublinha que a oração de Jesus ao Pai era cheia de confiança e familiaridade. No texto, Jesus dirige-se ao Pai com o termo “Abbá”, que na tradição judaica nunca é usado para Deus; além disso, “Abbá” aparece nos Evangelhos apenas neste texto, para sublinhar a profunda intimidade entre Deus e o seu Filho Jesus no momento em que este se sentiu mais necessitado do amor do Pai.

Marcos é também o único a acrescentar um detalhe, talvez de caráter pessoal: o de um jovem que, para fugir dos guardas, deixa cair o lençol e foge nu. Pode tratar-se de uma memória autobiográfica. Marcos era de Jerusalém, e o próprio horto do Getsêmani poderia pertencer à sua família; naquela noite, ele teria sido surpreendido a dormir no local e, por isso, coberto apenas com um lençol.

Texto

32 Chegaram a um lugar chamado Getsêmani, e Jesus disse aos seus discípulos: “Sentai-vos aqui, enquanto eu rezo”.
33 Levou consigo Pedro, Tiago e João e começou a sentir pavor e angústia.
34 Disse-lhes: “A minha alma está triste até à morte. Ficai aqui e vigiai”.
35 E, avançando um pouco, caiu por terra e orava para que, se fosse possível, aquela hora se afastasse dele.
36 E dizia: “Abbá, Pai, tudo te é possível: afasta de mim este cálice! Contudo, não o que eu quero, mas o que tu queres”.
37 Voltou e encontrou-os a dormir. Disse então a Pedro: “Simão, dormes? Não conseguiste vigiar uma só hora?
38 Vigiai e rezai, para não entrardes em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca”.
39 Afastou-se novamente e orou, repetindo as mesmas palavras.
40 Voltou e encontrou-os de novo a dormir, pois os seus olhos estavam pesados, e não sabiam o que lhe responder.
41 Voltou pela terceira vez e disse-lhes: “Dormide agora e descansai! Basta! Chegou a hora: eis que o Filho do Homem é entregue às mãos dos pecadores.
42 Levantai-vos, vamos! Eis que aquele que me trai está próximo”.

43 E logo, enquanto ainda falava, chegou Judas, um dos Doze, e com ele uma multidão armada de espadas e paus, enviada pelos chefes dos sacerdotes, escribas e anciãos.
44 O traidor tinha-lhes dado um sinal combinado: “Aquele que eu beijar é ele; prendei-o e levai-o com segurança”.
45 Logo que chegou, aproximou-se de Jesus e disse: “Rabi!”, e beijou-o.
46 Então lançaram-lhe as mãos e prenderam-no.
47 Um dos presentes puxou da espada, feriu o servo do sumo sacerdote e cortou-lhe a orelha.
48 Jesus disse-lhes então: “Saístes com espadas e paus para me prender, como se eu fosse um ladrão?
49 Todos os dias eu estava convosco no templo, a ensinar, e não me prendestes. Mas assim se cumprem as Escrituras!”.
50 Então todos o abandonaram e fugiram.
51 Seguia-o, porém, um jovem que tinha apenas um lençol sobre o corpo; agarraram-no,
52 mas ele, largando o lençol, fugiu nu.


Evangelho segundo Lucas (22,39–54)

Introdução

Entre os evangelistas, Lucas é o único a recordar o “suor de sangue”, causado pela extrema angústia de Jesus, que naquele momento de escuridão recebeu do Pai o conforto de um anjo. O fenómeno físico da hematidrose pode ocorrer devido a um sofrimento extremo, e o evangelista, que segundo a tradição era médico, atribui-o à “agonia” (em grego, “luta”) de Jesus contra o “poder das trevas”.

O “poder das trevas” de que dispunham aqueles que vieram prender Jesus tem um significado tanto literal como bíblico. Jesus deixa entender que a sua prisão ocorreu à noite, sob a cobertura das “trevas”, para que a multidão que de dia o seguia não pudesse intervir em seu auxílio. Além disso, as trevas são frequentemente usadas na Bíblia como metáfora de tudo o que é mal e contaminado pelo pecado. Lucas é também o único a narrar o gesto de piedade de Jesus para com o servo do sumo sacerdote, curando-lhe a orelha ferida pela espada de um dos discípulos.

Texto

39 Jesus saiu e foi, como de costume, para o monte das Oliveiras; e os discípulos seguiram-no.
40 Chegado ao lugar, disse-lhes: “Rezai, para não entrardes em tentação”.
41 Depois afastou-se deles cerca de um tiro de pedra, ajoelhou-se e orava, dizendo:
42 “Pai, se queres, afasta de mim este cálice; contudo, não se faça a minha vontade, mas a tua”.
43 Apareceu-lhe então um anjo do céu para o confortar.
44 Em agonia, orava mais intensamente, e o seu suor tornou-se como gotas de sangue que caíam por terra.
45 Levantando-se da oração, foi ter com os discípulos e encontrou-os a dormir, vencidos pela tristeza.
46 Disse-lhes: “Por que dormis? Levantai-vos e rezai, para não entrardes em tentação”.

47 Enquanto ainda falava, chegou uma multidão; aquele que se chamava Judas, um dos Doze, vinha à frente e aproximou-se de Jesus para o beijar.
48 Jesus disse-lhe: “Judas, com um beijo trais o Filho do Homem?”.
49 Os que estavam com ele, vendo o que ia acontecer, disseram: “Senhor, devemos ferir à espada?”.
50 E um deles feriu o servo do sumo sacerdote e cortou-lhe a orelha direita.
51 Mas Jesus interveio, dizendo: “Deixai! Basta!”. E, tocando-lhe a orelha, curou-o.
52 Depois Jesus disse aos que tinham vindo contra ele — chefes dos sacerdotes, oficiais do templo e anciãos —: “Saístes com espadas e paus, como se eu fosse um ladrão.
53 Todos os dias eu estava convosco no templo, e não levantastes as mãos contra mim. Mas esta é a vossa hora e o poder das trevas”.
54 Depois de o prenderem, levaram-no e introduziram-no na casa do sumo sacerdote. Pedro seguia-o de longe.


Evangelho segundo João (18,1–14)

Introdução

João não apresenta Jesus como o servo sofredor de Isaías 53. O Jesus de João, através da sua Paixão, leva a cumprimento a missão para a qual estava destinado, e a sua própria morte na cruz é a sua glorificação (Jo 12,20–33). No quarto Evangelho, portanto, está ausente todo o relato da agonia; apresenta-se antes um Jesus que, no jardim, não é entregue por Judas, mas se oferece voluntariamente para beber o “cálice” preparado pelo Pai.

Ao contrário dos Sinóticos, não se menciona nem o monte das Oliveiras nem o Getsêmani, mas um jardim para além do Cedron, o torrente que separa o monte do Templo do monte das Oliveiras. Enquanto os outros evangelistas são vagos ao indicar o autor do corte da orelha do servo do sumo sacerdote, João especifica não só o nome do servo, Malco, como identifica em Simão Pedro o responsável pelo golpe na orelha direita. Este gesto pode ser interpretado como a vontade de Pedro de infligir um sinal de infâmia. Além disso, João esclarece que a prisão de Jesus foi executada por um grupo de soldados e algumas guardas enviadas pelos chefes dos sacerdotes e pelos fariseus, uma situação mais realista do que a indicada por Lucas, que inclui entre os presentes os próprios chefes dos sacerdotes e os chefes da guarda do templo.

Texto

1 Depois de dizer estas coisas, Jesus saiu com os seus discípulos para além do torrente Cedron, onde havia um jardim, no qual entrou com os seus discípulos.
2 Judas, o traidor, conhecia bem aquele lugar, porque Jesus muitas vezes ali se reunira com os seus discípulos.
3 Judas, então, levou consigo um destacamento de soldados e algumas guardas enviadas pelos chefes dos sacerdotes e pelos fariseus, com lanternas, tochas e armas.
4 Jesus, sabendo tudo o que lhe ia acontecer, avançou e perguntou-lhes: “A quem procurais?”.
5 Responderam-lhe: “Jesus, o Nazareno”. Jesus disse-lhes: “Sou eu”. Judas, o traidor, estava também com eles.
6 Quando Jesus lhes disse “Sou eu”, recuaram e caíram por terra.
7 Perguntou-lhes de novo: “A quem procurais?”. Eles responderam: “Jesus, o Nazareno”.
8 Jesus replicou: “Já vos disse que sou eu. Se é a mim que procurais, deixai ir estes”,
9 para que se cumprisse a palavra que ele dissera: “Não perdi nenhum daqueles que me deste”.
10 Então Simão Pedro, que tinha uma espada, puxou-a, feriu o servo do sumo sacerdote e cortou-lhe a orelha direita. O nome do servo era Malco.
11 Jesus disse então a Pedro: “Embainha a espada: não hei de beber o cálice que o Pai me deu?”.
12 Então os soldados, o tribuno e as guardas dos judeus prenderam Jesus, amarraram-no
13 e conduziram-no primeiro a Anás, que era sogro de Caifás, o sumo sacerdote daquele ano.
14 Caifás era quem tinha aconselhado os judeus: “Convém que um só homem morra pelo povo”.

Nascimento e desenvolvimento do piedoso exercício da Hora Sancta

Jesus aparece em 1674 a uma “pequena mulher”, Santa Margarida Maria Alacoque (1647–1690), enquanto ela estava em adoração. Não era a primeira vez que Cristo se lhe manifestava, mostrando-lhe o seu Coração. Nessa ocasião, Jesus pediu-lhe a «Hora Santa» de reparação, a ser realizada todas as noites entre quinta e sexta-feira, das onze à meia-noite. Nessa hora, ela era tornada participante da tristeza de Jesus no Getsêmani.

A difusão dessa prática piedosa no mundo católico permaneceu intimamente ligada ao favor que o Culto do Sagrado Coração de Jesus encontrou nos séculos XVIII e XIX. A Hora Santa baseia-se em três características principais, recolhidas das memórias de Margarida Maria: a oração reparadora, a união com Jesus sofredor no Getsêmani e os gestos de humilhação.

Em maio de 1930 foi celebrado em Paray-le-Monial o primeiro centenário da instituição da Hora Santa. A convite da Arquiconfraria da Hora Santa, todo o mundo católico se uniu para celebrar juntos a Hora Santa. O Pe. Custódio Aurélio Marotta dispôs que, no Getsêmani, o mesmo lugar onde Jesus sofreu a sua Hora Santa, a prática piedosa fosse celebrada durante a noite. Três anos depois, em 6 de abril de 1933, na quinta-feira que precedeu a Semana Santa, diante da pedra da agonia na basílica do Getsêmani, o Pe. Custódio Nazareno Jacopozzi erigiu canonicamente a Confraria da Hora Santa, afiliada à confraria-mãe de Paray-le-Monial.

A Confraria teve imediatamente numerosos inscritos de todo o mundo (em um ano alcançou 21.500 inscritos, que em três anos se tornaram 92.482). Os seus membros eram chamados a realizar o exercício da Hora Santa na tarde ou na noite de cada quinta-feira, prática da qual recebiam a indulgência plenária. Também a missa cantada que, todas as quintas-feiras, os frades franciscanos celebravam no Getsêmani era oferecida em sufrágio dos inscritos na confraria.

Hoje, a prática da Hora Santa diante da pedra da agonia continua institucionalmente toda primeira quinta-feira do mês às 16h00. Além disso, todos os peregrinos que o solicitarem podem celebrar a Hora Santa no Getsêmani durante a peregrinação à Terra Santa.

Todos os anos, na noite da Quinta-feira Santa, a comunidade franciscana reúne-se, juntamente com a comunidade cristã local e com todos os fiéis que chegam a Jerusalém para a Páscoa, para “vigiar e rezar” uma hora junto com Jesus.

São proclamadas em árabe, hebraico, alemão, inglês, francês, espanhol, italiano e muitas outras línguas as passagens evangélicas relativas ao lugar onde Jesus, antes de ser preso, suando sangue, se abandonou à vontade do Pai e ao seu destino de sofrimento e humilhação.

A celebração recorda três momentos principais narrados nos Evangelhos da Paixão:

– o anúncio da negação de Pedro (Mc 14,26-31; Lc 22,31-37);
– a agonia de Cristo e a sua oração no Horto das Oliveiras (Mt 26,36-46; Mc 14,32-42; Lc 22,39-46);
– a prisão por parte das guardas (Mt 26,47-56; Mc 14,43-52; Lc 22,47-54).

No início da Hora Santa, o Pe. Custódio espalha pétalas de rosas vermelhas sobre a rocha nua exposta diante do altar e inclina-se para a beijar. As pétalas recordam as gotas de sangue que o Senhor suou naquela noite. A leitura dos trechos evangélicos é acompanhada por alguns salmos e orações. Os três momentos são intercalados por breves espaços de silêncio e de oração pessoal. Ao término da celebração, todos os fiéis se prostram, tocam e beijam as rochas veneradas, antes de partir em procissão, ao longo do vale do Cedron, com tochas acesas, em direção à igreja do Gallicantu, o lugar onde se encontrava a casa do sumo sacerdote Caifás e onde Jesus foi levado e passou a noite na prisão.

www.horasancta.org

O Eremitério do Getsêmani oferece a possibilidade de rezar em solidão, à semelhança de Jesus, que na noite do Getsêmani, AQUI, permaneceu completamente só, em relação pessoal com o Pai.

Nessa compreensão do Lugar, convidamos cada peregrino a um delicado respeito, para se deixar tomar pela mão pelo Senhor que ainda hoje fala.

Por isso, pode-se compreender que o Eremitério do Getsêmani foi realizado exclusivamente para a oração e não é nem um destino turístico, nem um alojamento para visitar a Terra Santa.

O Eremitério acolhe a todos: homens e mulheres, presbíteros, religiosos e leigos, no respeito do caminho de cada um.

Horários de abertura e fechamento do Santuário do Getsêmani:

Verão (abril–setembro): 8:00 – 18:00
Inverno (outubro–março): 8:00 – 17:00

Horários da Gruta do Getsêmani
Verão: 8:00 – 12:00 / 14:30 – 18:00
Inverno: 8:00 – 12:00 / 14:30 – 17:00

Missas conventuais:
Todas as quintas-feiras às 16:00 (em italiano).
A missa dominical é seguida pela Adoração Eucarística.

Hora Santa celebrada:
De segunda a sábado, das 20:00 às 21:00 – Hora Santa Internacional – mediante reserva junto ao Franciscan Pilgrims’ Office – FPO.
Toda primeira quinta-feira do mês, às 20:30, com procissão luminosa ao redor do Horto Sagrado.

Festas e celebrações ao longo do ano:
Período da Quaresma: segunda semana da Quaresma – Peregrinação com Missa solene
Semana Santa:
 Quarta-feira – Missa solene com canto da Paixão
 Quinta-feira – Hora Santa
Solenidade do Preciosíssimo Sangue de Jesus – 1º de julho
Solenidade da Assunção da Bem-Aventurada Virgem Maria – 14/15 de agosto

Para qualquer tipo de celebração nos Lugares Santos é necessária reserva, a ser feita junto ao:
Franciscan Pilgrims’ Office – FPO
Tel.: +972 2 6272697
E-mail: fpo@cicts.org

Os grupos católicos podem celebrar a Santa Missa ou a Hora Santa nos seguintes horários:

Dias de semana:
– manhã: 8:00 – 9:00 – 10:00 – 11:00
– tarde: 15:00 – 16:00 (inverno) / 17:00 (verão)

Domingos e festas:
– manhã: 9:00 – 10:00 – 11:00
– tarde: 15:00 (inverno e verão)

O serviço nos lugares do Santuário é confiado à Comunidade Franciscana do Getsêmani; um frade está sempre presente no Santuário para o acolhimento e a escuta dos peregrinos. Para o Sacramento da Reconciliação, há sempre um sacerdote disponível.

Expressão da comunidade do Getsêmani é o Eremitério, situado ao lado da Basílica. O local, imerso em um grande jardim, oferece a possibilidade de rezar em solidão, à semelhança de Jesus, inclusive por um período mais prolongado. Informações e reservas:

GETSÊMANI – CONVENTO DA AGONIA
c/o FRADES FRANCISCANOS – POB 19094
91190 Jerusalém – Israel
Tel.: +972 2 6266444
Fax: +972 2 6261515

EREMITÉRIO DO GETSÊMANI
Tel.: +972 2 6266430
Fax: +972 2 6260394
E-mail: romitaggio@custodia.org
página web: romitaggio

Os Lugares Santos do Getsêmani estão abertos a todos, mas pede-se respeito e silêncio. Portanto, as explicações devem ser feitas no exterior.

O conteúdo deste sítio Web é propriedade da Custódia da Terra Santa. É proibida a utilização de textos ou imagens por terceiros sem o consentimento expresso da Custódia da Terra Santa. Copyright © Custódia da Terra Santa - Todos os direitos reservados
< Voltar a todos os santuários
Manter-se em contacto

Subscreva a newsletter para se manter atualizado

Subscription Form PT

@custodiaterraesanctae

© 2024 Custodia Terrae Sanctae | CF: 02937380588 |
Privacy Policy
-
magnifiercrosschevron-downchevron-leftchevron-right