A Custódia

Somos um grupo de homens Cristãos chamados por Deus, de todas as partes do mundo para uma missão especial: cuidar da sua casa!

Somos parte de uma Ordem Religiosa da Igreja Católica, a Ordem dos Frades Menores, os franciscanos. 

O nosso fundador São Francisco de Assis no inicio do século XIII movido pelo amor a Cristo pobre e Crucificado veio ao Oriente Medio para tocar os lugares que até hoje constituem um testemunho insubstituível da revelação de Deus e do seu amor pelos homens. Naquela sua peregrinação, não obstante as guerra dos Cruzados, encontrou e dialogou com o sultão Melek Al- Kamel, que naquele tempo governava na Terra Santa. Foi um encontro pacífico, que deu inicio à presença dos franciscanos na Terra Santa e que marcou também o estilo da nossa presença no decorrer dos séculos, até hoje.

 

Esta província da Ordem Franciscana com o tempo obteve o nome de Custodia da Terra Santa

A Missão dos Franciscanos na Terra Santa

Os Frades não foram apenas os “guardiães” das pedras e dos lugares, a fim de preservar seu valor, mas sua missão também foi a de fazer com que sejam vivas aquelas pedras, de fazer com elas falem ao coração e à mente de todos os que se colocam em peregrinação na Terra Santa, para conseguir ver as “simples pedras” como “pedras amadas”, através da fé. 

São Francisco e os franciscanos tiveram sempre presente o amor à Encarnação de Jesus. E é por isso que desde o inicio amaram a Terra Santa. De fato, não existe Encarnação sem o Lugar. Para nós amar esta Terra significa amar Jesus. E não podemos pensar em Jesus, sem amar a Terra Santa. È por este especial carinho dos franciscanos ao Evangelho de Jesus e à sua Encarnação que a Igreja Católica nos deu a missão de custodiar os lugares da nossa Redenção.

Os Lugares Santos, mesmo que se queira apenas admirar sua beleza, não são simples pedras. São antes a manifestação, as pegadas da passagem de Deus neste mundo, o eco das palavras do Senhor, que nos falou por meio dos profetas e dos apóstolos, que se fez “carne”, homen como nós, habitando em nosso meio. São pedras que ouviram a voz e beberam o sangue de nosso Salvador. Ora, aquela palavra de Deus e aquele sangue derramado devem ser recolhidos e conservados para que formem parte da vida de cada cristão. 

Captar a voz que brota daquelas pedras e compreender sua mensagem é, desde sempre, o trabalho dos filhos de S. Francisco na Terra Santa. 

Isso pretendem os vários Papas, quando afirmam que a missão dos Frades foi a de fazer com que os Lugares Bíblicos sejam centros de espiritualidade, que cada santuário conserve e transmita a mensagem evangélica e que alimente, além disso, a piedade dos fiéis. 

Em conclusão: Somos uma fraternidade da Ordem dos Frades Menores, que vivendo na Terra Santa guarda, estuda e torna acolhedores os Lugares da origem da fé cristã, e vivendo neles anuncia as maravilhas do amor do Altíssimo Onipotente e Bom Senhor que aqui quis fazer-se homem como nós, para a salvação de todos os homens.

A Custódia e sua história na Terra Santa

Os principais protagonistas dos Lugares Santos são os frades menores. Eles cumprem a sua missão nesta terra, impulsionados por seu fundador, São Francisco de Assis. Os primeiros Frades chegaram à Terra Santa em 1217, guiados por Fr. Elias de Cortona. Depois disso, sempre colheram os desafios dos tempos para poder transmitir a Graça dos Lugares Santos a toda a humanidade e para partilhar a sua vida com as “pedras vivas”, ou seja, as Comunidades Cristãs locais.

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Na prática a origem da Custódia da Terra Santa si dá em 1217, ano no qual, em Santa Maria dos Anjos, próximo de Assis, se celebra o primeiro Capítulo Geral dos Frades Menores. São Francisco, em um gesto inspirativo, decide mandar os seus frades a todas as nações. 
O mundo foi, por assim dizer, dividido em “Províncias” franciscanas e os frades, partindo de Assis, dividiram-se aos quatro pontos cardiais. Naquela solene ocasião, não foi esquecida a Terra Santa. Entre as onze Províncias-Mães da Ordem, apareceu também a Província da Terra Santa. Nos documentos foi apresentada com nomes diferentes: Província da Síria, da România ou Ultramarino. 

Esta Província era composta por Constantinopla e o seu império, pela Grécia e suas ilhas, pela Ásia Menor, Antioquia, Síria, Palestina, a ilha de Chipre, Egito e todo o resto do Oriente.

A Província da Terra Santa, seja pela vastidão do seu território, seja pela presença dos Lugares Santos, sempre foi vista com especial consideração. Era apresentada, desde o início, como sendo a “Província” mais importante da Ordem. Por isso, talvez, tenha sido confiada aos cuidados de frei Elias, um expoente na fraternidade que surgia, seja por seu talento organizativo, seja por sua vasta cultura. Seria interessante conhecer as iniciativas de frei Elias para organizar e consolidar esta Província da Ordem, levando em conta os problemas existentes naquele ambiente e por sua grande extensão geográfica.
O zelo e a qualidade de um bom governo que distinguiam frei Elias, devem ter-lo impulsionado, durante os anos de seu mandato, a lançar as bases do apostolado franciscano em todas as regiões situadas na Bacia Sul – Oriental do Mediterrâneo. 
Em 1219, o próprio São Francisco quis visitar pelo menos uma parte da Província da Terra Santa. Os documentos que relatam a presença do “Pobrezinho de Assis” entre os Cruzados, sobre os muros de Damieta, são do conhecimento de todos. Como também é conhecido o encontro de São Francisco com o Sultão Egípcio, Melek-el-Kamel, neto de Saladim o Grande. Os mesmos documentos relatam que Francisco, depois de ter deixado Damieta, dirigiu-se à Síria. 
De qualquer modo, a visita de São Francisco aos Lugares Santos se deu entre 1219 e 1220. Referente a isto Jacques de Vitry, bispo de São João de Acre (cidade conhecida como Tolemaida), escreveu: “O mestre desses frades, que é também o fundador da Ordem, chama-se Francisco. É amado de Deus e venerado por todos os homens. Veio ao nosso exército cheio de zelo pela fé. Não teve medo de passar até o campo dos inimigos”.

Durante sua breve viagem, São Francisco indicou aos futuros missionários franciscanos de que modo eles deveriam habitar naquelas regiões e qual seria o seu campo específico de atividades. No entender do “Pobrezinho”, a Evangelização deve ser feita amigavelmente e com extrema humildade, exatamente como ele fizera com o Sultão. Os Lugares Santos devem ser amados e venerados por sua estreita relação com os momentos mais significativos da vida de Cristo.

Os historiadores afirmaram que a partir do século XII, e especialmente a partir da falência das Cruzadas, o acesso aos Lugares Santos veio garantido pelo uso de uma nova estratégia, onde o apostolado missionário, através de uma presença desarmada dos franciscanos veio a substituir as expedições militares. 
Quando o Papa Gregório IX, de Perusa onde vivia, com a Bula datada em 1º fevereiro de 1230, recomendava aos Patriarcas de Antioquia e de Jerusalém, aos Núncios da Santa Sede, a todos os Arcebispos e Bispos, aos Abades, aos Priores, aos Superiores, aos Decanos, aos Arcediaconos e a todos os Prelados da Igreja os quais teriam contato com a Bula, de acolher e favorecer em todos os modos a Ordem dos Frades Menores. Podemos concluir que de qualquer modo, as Cruzadas faliram no objetivo e que teria sido melhor e, sobretudo mais evangélico esforçar-se a conviver e a dialogar com os Muçulmanos, ao invés de combater-los. 
Sendo assim, até mesmo a causa dos Lugares Santos teria conseguido vantagens melhores. De qualquer modo, se a Bula de Gregório IX de 1230 não pode ser considerada um documento oficial para o reconhecimento jurídico do ensinamento dos filhos de São Francisco na Terra Santa, ela é, porém o documento que prepara o terreno e abre a possibilidade de penetrar no país e de tomar posse do mesmo.

Outra data segura, para a história da Província da Terra Santa, é o ano de 1263. Naquele ano, sob o generalato de São Boaventura, se celebrou, em Pisa, o Capítulo Geral. Naquela ocasião, como era de se esperar, se discutiu também sobre a Província da Terra Santa. Onde foi decidido de circunscrever esta Província em Custódias: a Custódia de Chipre, da Síria, do Líbano, da Palestina e da Terra Santa que compreendia os conventos de São João de Acre, Antioquia, Sidon, Tripoli, Jerusalém, Jaffa.
A reconquista de São João de Acre por parte dos Muçulmanos, ocorrida em 18 de maio de 1291, marcou o fim do reino latino na Terra Santa. Os cristãos foram submetidos a duras provas. Os franciscanos foram expulsos da Terra Santa e obrigados a refugiar-se em Chipre, onde se encontrava naquela época a sede do Provincial. Devida a proximidade geográfica os franciscanos não deixaram de mostrar interesse pelo trabalho na Terra Santa. Mesmo exilados da sua pátria, o constante desejo dos frades era de encontrar um modo de viver próximo dos Lugares Santos. 
Sobre isso não se descuidaram. Visitas privadas de cunho devocional e visitas autorizadas pela Santa Sé foram realizadas para manter o contato com os Lugares Santos, estes fatos são testemunhados por documentos históricos daquela época.

Um dos primeiros gestos de benevolência cumpridos a favor dos franciscanos veio por parte do sultão Bibars II (1309-1310) o qual doou a eles a “igreja de Belém”, mas por motivo de morte repentina deste sultão os frades não puderam tomar posse da igreja. Em 1322, Jaime II de Aragão, obteve do sultão Egípcio Melek el Naser que a proteção do Santo Sepulcro fosse confiada aos Dominicanos Aragonenses. Mas a autorização pareceu inválida. O próprio Jaime II, quatro anos depois em 1327 implorava novamente a graça suprema, mas desta vez não aos Dominicanos e sim aos franciscanos.

A Bula do Papa João XXII, emitida em 9 de agosto de 1328, concedia ao Ministro Provincial residente em Chipre a faculdade de enviar a cada ano dois frades para visitar os Lugares Santos. Na realidade, já no período que vai de 1322 a 1327, alguns franciscanos prestavam serviços no Santo Sepulcro. 
Em 1333 o sultão do Egito concedeu ao frei Roger Guérin de Aquitania o Santo Cenáculo. Este frade por sua vez não tardou em construir um convento nas proximidades servindo-se de fundos colocados a disposição pelos Soberanos de Nápoles, Roberto de Anjou e de Sancha, filha de Jaime I rei de Maiorca. Estes dois soberanos, com muito mérito, são considerados os “instrumentos da Providência” no que toca os Lugares Santos. Exerceram a função de peça chave nas tratativas, seja por sua influência diplomática, seja pelas particulares ajudas dadas. 
Foi graças a eles e sua interseção, que as autoridades muçulmanas locais concederam aos franciscanos o direito oficial de atuarem na Basílica do Santo Sepulcro.

O reconhecimento jurídico por parte da Santa Sé, estendido também aos outros santuários, surgiu alguns anos mais tarde, justamente em 21 de novembro de 1342 com as Bulas Gratias Agimus e Nuper Carissimae. Estas Bulas são consideradas a conclusão definitiva do comprometimento dos reis de Nápoles durante as longas documentações seguidas pela causa dos Lugares Santos. Além do reconhecimento oficial, a Bula de 1328 apresentava prescrições e atas para garantir a continuidade da instituição. Com uma intenção particular, veio assegurada a internacionalidade da nova entidade eclesiástico-religiosa, prescrevendo que os frades poderiam ser provenientes de todas as Províncias da Ordem. Para salvaguardar a disciplina, vinha prescrito que todos os frades, de qualquer Província a que pertencessem, uma vez que nomeados ao serviço na Terra Santa, estariam sob a obediência do Padre Custódio do Monte Sião em Jerusalém, que era o representante do Ministro Provincial residente a Chipre. 

Em 1347 os franciscanos tomaram posse definitiva também em Belém próximo à Basílica da Natividade de Nosso Senhor.
Os primeiros estatutos da Terra Santa, que remonta a 1377, previam não mais de vinte religiosos no serviço dos Lugares Santos de: Santo Sepulcro, Santo Cenáculo e Belém. A principal atividade deste número de frades era de assegurar a vida litúrgica nos Santuários nomeados e a assistência religiosa aos peregrinos europeus. Em um documento do ano de 1390, se especifica que a Província da Terra Santa, com sede em Chipre, tinha também uma Custódia em Síria, que abarcava quatro conventos: Monte Sião, Santo Sepulcro, Belém e Beirut. É importante notar que o documento em questão não faz outra coisa a não ser confirmar a situação que já existia a tempo, seja pelo número de conventos seja pela denominação do organismo religioso chamado Custódia de Síria. Isto talvez para não criar possíveis confusões com a denominação de Província da Terra Santa da qual fazia parte.

Neste primeiro período oficial da sua história, a Custódia obteve o “selo do martírio” com o sacrifício de muitos dos seus frades. O primeiro sangue franciscano que banhou a terra de Jerusalém foi em 1244, durante a invasão dos Carismini que passaram no fio da espada, um grande número de cristãos e trucidaram cruelmente os Frades Menores. 
Outros, lembrados por Alessandro IV, sofreram o martírio em 1257. Nove anos depois, em Safet por volta de 1266, outros dois mil combatentes cristãos morreram depois da ocupação da cidade por parte do Sultão Bibars. Junto destes, morreram também os heróicos frades que não quiseram renegar sua fé. Em 1268 também Jaffa e Antioquia tiveram suas vítimas franciscanas.
Novamente na Síria, em 1269, a fio de espada sarracena morreram oito frades. Fatos narram que sobre o corpo de um desses, o de frei Corrado de Hallis, que boiava no mar, brilharam por quase três dias duas chamas fulgurantes. Em Damasco e em Tripoli, no ano de 1277, um novo sangue cristão foi derramado pelas mãos armadas do Sultão Kelaun. 
Acre, a última fortaleza do Reino Latino, foi assaltado pelo Sultão Melek el Ascaraf. Mais de três mil cristãos e numerosos frades sucumbiram naquela ocasião por causa dos sarracenos.

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Destinada a recolher o comando e a herança dos Cruzados, a Província da Terra Santa é agora lançada à conquista específica dos Lugares Santos e destinada a representar os interesses da Igreja Católica no Oriente. A sua existência jurídica é reconhecida tanto pelas autoridades eclesiásticas quanto pelas civis muçulmanas. 
Em 1347 os franciscanos tomaram posse em Belém como habitantes oficiais da Basílica e da Gruta da Natividade. Em 1363, Joana, rainha de Nápoles e da Cicília obteve uma assinatura do Sultão do Egito. Por força desta assinatura, os franciscanos alcançaram o direito de posse da Edícula e do Túmulo de Maria, no vale de Josafat. Em 1375, do convento de Belém, os franciscanos receberam também a posse da chamada Gruta do Leite, situada nas proximidades daquela da Natividade de Nosso Senhor. Em 1392, obtiveram o direito oficial da Gruta do Getsêmani situada no vale di Josafat, a poucos metros do Túmulo de Maria. Em 1485, readaptaram o culto à Gruta da Natividade de São João Batista em Ain Karem.

Com o aumento dos compromissos, sentiu-se a necessidade de uma legislação adequada. Em 1377, foram constituídos os primeiros Estatutos da Terra Santa. Esses deram um grande incremento às prescrições enunciadas na Bula Gratias Agimus, prescrevendo que o número de religiosos que prestavam serviço em Terra Santa não superasse os vinte. Naquilo que diz respeito à atividade, os frades deveriam ocupar-se, além do culto religioso nos santuários, deveriam atender também os peregrinos europeus que vinham visitar os Lugares Santos.
Em 1444, Lausana sediou o Capítulo Geral dos Frades Menores. Os capitulares, assim como nas assembléias gerais precedentes, trataram dos problemas da Terra Santa e deram-se conta que seria necessário transformar a Custódia em um órgão mais autônomo do que uma simples Província. Além de ter que incrementar o numero de religiosos a seu serviço. 
Dezesseis anos mais tarde, exatamente em 1430, foi estabelecido que o Custódio da Terra Santa fosse eleito pelo Capítulo Geral, prática que foi mantida por três anos. Em seguida a eleição do Custódio da Terra Santa foi feita pelo Ministro Geral juntamente com seu Conselho, e esta norma se respeita até os dias de hoje.

Em 1517 a Custódia da Terra Santa, por manter sua denominação, conquistou plena autonomia através da configuração à Província. Simultaneamente ao progressivo definir-se da figura jurídica, a Custódia obteve da Santa Sé particulares poderes e autorizações em diversos setores, mas sempre em vista de uma presença mais dinâmica dos frades na Terra Santa. 
Os frades puderam assim empenhar-se mais, especialmente na assistência espiritual dos peregrinos, porém mais ainda na atividade ecumênica, que teve o seu primeiro coroamento durante o Concílio de Florença (1431-1443). Nesta ocasião conseguiu-se a reconciliação entre os cristãos separados do Oriente e a Igreja Católica. Esta reconciliação logo revelou-se transitória, e por aproximadamente dois séculos, os franciscanos de Terra Santa, representaram quase que a única possibilidade “in loco” de relações diretas e autorizadas do mundo católico com as Igrejas separadas do Oriente Médio. As relações com as Igrejas orientais continuaram se mantendo vivas, até os dias de hoje, adequando-se às diversidades dos tempos e das situações juntamente com as inúmeras iniciativas da Santa Sé no intuito de reavivar os contatos e o espírito ecumênicos. Este apostolado especial, apesar dos questionamentos, não é reconhecido como realmente mereceria.

Outra atividade que lamentavelmente ficou na sombra da história dos franciscanos em Terra Santa é aquela da assistência espiritual aos comerciantes europeus que residiam ou estavam de passagem nas cidades do Egito, da Síria e do Líbano. Esta atividade que no início não era organizada e se dava conforme as oportunidades favoráveis foi melhor constituída. Na segunda metade do século XVI a assistência espiritual tornou-se mais ou menos contínua, até a assumir no século XVII um caráter estável, com a criação de residências para melhor atender as necessidades presentes. Os franciscanos que desde o início haviam se tornado capelães de Cônsules e de colônias comerciais européias. Consolidando-se assim, como apóstolos a serviço de todos, “irradiando a luz do Evangelho” em torno de suas residências, que de pouco a pouco, se configuravam em verdadeiras paróquias com inúmeras obras e atividades de todos os gêneros.

A evangelização na Terra Santa, em alguns momentos da história, foi promovida até em favor dos fiéis da religião muçulmana, seja em forma de evangelização pessoal como coletiva. Empenho este que sempre trouxe resultados diferentes, algumas vezes tendo como conseqüência a morte de alguns frades. Foram mortos, em 1391, os quatro mártires canonizados pelo Papa Paulo VI no dia 21 de julho de 1970: Nicolò Tavelich (croata), Stefano da Cuneo (italiano) e Deodato da Rodez e Pietro da Narbona (franceses). A respeito destes mártires, no discurso pronunciado pelo Papa durante a cerimônia de canonização, dentre outras coisas foi afirmado: “estamos diante de um testemunho paradoxal, contrastante e vão, porque foi logo acolhido, mas de grande preciosidade, porque foi autenticado com o dom da própria vida”.

Seja como for, a presença dos franciscanos na Terra Santa está, sobretudo ligada aos santuários e à cura dos Lugares Santos, mesmo porque, analisando mais profundamente, todas as outras atividades se criaram partindo da ligação com os santuários e se fortificaram por causa da grande importância que tinham perante toda a Igreja.
Desde o início deste período, que nomeamos como período de organização, os franciscanos empenharam-se em reconstruir os santuários da Terra Santa que com o tempo se encontravam em ruínas. 
- Em 1343 foi reformada a construção cruzada do Cenáculo. 
- Em 1479, sob a vigilância do frei João Tomacelli de Nápoles, foi refeito toda a estrutura do telhado da Basílica da Natividade em Belém. Para concluir tamanha obra, frei João contou com a ajuda: da República de Veneza que doou a madeira necessária, Felipe o Bom que era Duque de Borgonha bancou as despesas dos trabalhos e Eduardo IV, rei da Inglaterra, doou o chumbo usado para a cobertura. 
Os acontecimentos recordados neste período são muitos. É necessário recordar que os resultados positivos são todos frutos de tratativas complexas e quase que intermináveis, na maior parte das vezes economicamente onerosas, mas afrontadas sempre com imbatível tenacidade.

Chi siamo - Firmano

Este foi sem dúvida o período mais difícil na história plurissecular da Custódia da Terra Santa. Neste período foi comprovado que aqui na Terra Santa, nunca se pode estar seguro e despreparado, pois as coisas podem mudar a qualquer momento sem aviso prévio. 

Foi um longo e penoso tempo de perseguições: tormentos, expulsões, exílios, roubo de direitos adquiridos com muito suor eram corriqueiros e causavam grandes problemas. Nos três séculos precedentes, a presença dos franciscanos tinha dado um peso preeminente aos Santuários. A Comunidade Franciscana já tinha tomado posse e construído o próprio convento no Monte Sião com o direito de celebrar de modo exclusivo no Santo Cenáculo, e celebrava com as outras comunidades cristãs no Santo Sepulcro, na Basílica de Santa Maria no Vale de Josafat e por fim na Basílica da Natividade em Belém. No que diz respeito ao Santo Sepulcro, no século XV, os franciscanos gozavam da posse exclusiva e pacífica da edícula onde se encontrava o Sepulcro, da Capela do Calvário e da Cripta onde foi encontrada a Cruz de Cristo.

Em 1517 a Palestina, dominada pelos Mamelucos, foi reprimida pelos sultões Turcos com quartel-general em Constantinopla
As comunidades ortodoxas gregas, usufruindo da condição de súditos do império otomano, tiveram grande influência na Terra Santa. 

A “competição” pela posse dos Lugares Santos fez com que as comunidades dessem início a uma campanha de difamação contra os franciscanos, apresentando-os como usurpadores, estrangeiros e inimigos do império turco. Naquele período a Custódia da Terra Santa foi obrigada a suportar calúnias e roubos. 
O mais humilhante e gravoso foi a expulsão definitiva do Santo Cenáculo, ocorrida em 1552. O golpe foi duro: o convento do Monte Sião foi por dois séculos o centro de propulsão da atividade franciscana na Terra Santa.

Entre 1500 e 1800 a história dos Lugares Santos, no que toca o direito jurídico de posse, presenciou uma seqüência de perdas e também de algumas parciais recuperações. 
O fato de não ter chegado a uma perda total da Basílica do Santo Sepulcro e daquela de Belém é devido à parcial e fatigosa ação dos responsáveis da Custódia. 
Estes comprometeram as potências católicas para que estas fizessem valer o seu poder diplomático perante os sultões muçulmanos de Constantinopla visando a defesa dos direitos católicos dos Lugares Santos
Até mesmo o Papa Urbano VII, com a Bula emanada em 1623, reafirmou que era dever e direito de todos os Príncipes católicos proteger os franciscanos da Terra Santa. 

Enquanto isso nas Basílicas do Santo Sepulcro, de Belém e aquela do Túmulo de Maria no Vale de Josafat se registravam mais perdas de direitos jurídicos e os franciscanos na medida do possível conquistavam outros direitos em alguns Santuários diferentes. 
Em 1620 tomaram definitivamente posse do lugar da Anunciação à Nazaré e foi concedido aos frades o Monte Tabor
Estas duas aquisições foram possíveis graças à benevolência do Príncipe druso Fakhr-el Din. 
Em 1684 os franciscanos adquiriram a área que compreendia o Getsêmani, e em 1679, aquela do santuário de São João Batista em Ain Karem
Em 1754 foi obtido o santuário da Nutrição à Nazaré e em 1838 a área da Flagelação à Jerusalém.

Revendo a história da Custódia dos anos de 1500 até 1800 chamam atenção as variações de figura jurídica como também em campo eclesiástico. Variações estas, que correspondem à evolução da imagem jurídica do Padre Custódio. 
O dominicano padre Felice Fabri, que visitou a Terra Santa duas vezes, em 1480 e 1483, nos apresenta o Padre Custódio da Terra Santa com o título e honra de “Provisor” para a Igreja Latina no Oriente, encargo como ele mesmo expressa, que o Papa freqüentemente atribuía a ele. A primeira vez em que o Padre Custódio veio apresentado como “Responsale” da S. Congregação de Propaganda Fide em quase todo o Oriente Médio foi em 1628. Também encontramos o Padre Custódio com a nomeação de “Prefeito das Missões do Egito e de Chipre”. Não podendo esquecer, temos ainda outra denominação e qualificação jurídica importante dada ao Custódio: “Comissário Apostólico da Terra Santa e do Oriente”. Todas estas monções restaram para o encargo do Padre Custódio até a reconstrução do Patriarcado Latino de Jerusalém em 1847.

Naturalmente a relação entre a Custódia da Terra Santa e o Ocidente católico foi marcada também pelo caráter de tipo econômico por motivo da organização franciscana que não contemplava somas de capital pré-constituídas nem de algum lucro possível no território da atividade missionária. A Custódia por tanto, sempre teve a necessidade de ser financiada por ajudas vindas do exterior. Séculos afora, os Papas recordavam em documentos muito importantes, à toda a igreja, a necessidade e o dever de ajudar a Terra Santa. Foram feitas prescrições que orientavam a realização de coletas periódicas feitas em todas as dioceses. A ajuda econômica dos governos europeus também foi muito providencial, mesmo que nem sempre adequado à necessidade material ou ao prestígio, aspectos, pelo contrário, de muita valia por se tratar de um contesto oriental onde a Custódia agia.
Sobre este aspecto, muita ajuda foi ofertada à Custódia por parte do Reino de Nápoles, concretamente expresso através da criação do “Comissariado de Nápoles” a partir do ano de 1621 que com a realização de ofertas e doações enviava os fundos à Terra Santa. Além deste, foi instituído em 1636 o Comissariado operante no Reino das duas Sicília, com sede em Messina seguido de outro em Palermo. 
Em outra parte da Itália, Veneza consentiu um contínuo contato com a Terra Santa e os peregrinos que vinham transportados sobre as naus, garantindo-lhes uma viagem segura. Em 1593, chegou-se ao ponto de estabelecer que o Padre Custódio e os religiosos com ele eleitos ao governo dos frades que estavam a serviço dos Lugares Santos, embarcassem para o Oriente exclusivamente desta cidade portuária. Em 1520 o Senado Veneziano decidiu de fazer-se advogado do Guardião do Monte Sião, lembrando assim ao Papa que a Ordem Franciscana era custódia dos Lugares Santos pedindo assim para confirmar tal privilégio. Veneza empenhou-se pela defesa dos Lugares Santos, sobretudo graças às relações diplomáticas com Constantinopla.
A política da França em relação à Custódia teve expressão através as Capitulações, recebidas da França pela primeira vez em 1535 por parte do Sultão de Constantinopla Solimano II o Magnífico. Quando as capitulações estiveram em plena expansão em direção a Europa a por outras partes, o rei Francisco I assinou um acordo de ajuda contra Eurico VIII de Inglaterra. Isso causou grande escândalo entre os reinos cristãos da Europa.

Mas as Capitulações serviram, todavia, como ponte que permitiu aos Estados Muçulmanos de entrar em relações pacíficas e amigáveis com o mundo cristão. Para a França as capitulações constituíam a obrigação moral de intervir e proteger os franciscanos, através as intermediações de seus embaixadores a Constantinopla, que prestavam auxílio no momento de graves dificuldades existentes, sobretudo no século XVII. Em seguida, o cônsul da França residiria em Seyde, de onde si dirigia à Jerusalém para disciplinar possíveis questões pendentes. Em tais ocasiões ele recebia honras litúrgicas. Esta situação perdurou até 1793, mas as Capitulações desapareceram definitivamente só em 1917 com a ocupação aliada de Jerusalém, mesmo se juridicamente foram abolidas apenas em 1923 com o tratado de Lausanna.

O Protetorado Frances sobre todos os católicos, teve início com o rei Luís XIV, que pretendia ser o defensor dos cristãos do Império Otomano. Ele conseguiu obter tal direito, mas em um modo implícito e com termos definitivamente muito ambíguos. Somente com Luís XV, com as Capitulações de 1740, que o direito de Protetorado da França veio sancionado e reconhecido oficialmente. Tudo isto graças também ao papel que a França havia conquistado em favor do Império Otomano no tratado de Belgrado. A Santa Sé reconheceu oficialmente o Protetorado Frances sobre todos os católicos, de todas as nacionalidades, inclusive os turcos, do Império Otomano e também sobre aqueles de Rito Oriental. Em 1870 a França se assustou, pois viu sendo nominado delegado apostólico o vigário patriarcal de Constantinopla. A França continuava com a idéia da proteção aos católicos e assim o fez para restabelecer as relações diplomáticas entre a Santa Sé e a Turquia. Mas todos os protegidos da França que não eram cidadãos franceses suportavam de má vontade a proteção oferecida. Com o início do século XX, sempre mais religiosos não franceses deixavam de recorrer à proteção francesa, como resultado deste movimento somente os franceses acabavam dirigindo-se à França. 
O Protetorado Frances continuou até o ano de 1923. Foi a Sam Remo que os representantes da França tiveram que renunciar. O ponto final veio com o tratado de paz em Losanna, assinado entre a Turquia e as Potências de Hirteza em 24 de julho de 1923. De toda esta longa tradição de diplomacia restam somente os honores litúrgicos, ainda conjugados entre o Vaticano e a França em alguns países que pertenciam ao Império Otomano.

Espanha desde o início sempre se empenhou em ajudar os cristãos e os frades da Terra Santa, o fez através de grandes somas em dinheiro enviadas ao Oriente. Desde que os reinos de Aragão e de Castela se reuniram, o reis católicos assumiram o encargo de ajudar a Terra Santa e os frades guardiães dos santuários enviando cada ano, para tal fim, 1000 escudos. Em 1550 Carlos V aprovou as despesas para o restauro da Basílica do Santo Sepulcro. Em 1646 a S. Congregação emanava um decreto no qual vinha impedido, aos franciscanos de Terra Santa, de recuperar os santuários com dinheiro. Por tal motivo o rei espanhol ocupou-se diretamente de tal afazer, enviando um frade espanhol à corte de Constantinopla que obteve, em 11 anos, a devolução dos direitos franciscanos sobre os santuários que tinham sido furtados pelos Gregos. 
Em 1714 veio reconstruída a Basílica do Santo Sepulcro e novamente os custos foram sustentados pelo rei espanhol. Além disso, foi constituída a Madri a chamada Caixa da “Obra Piedosa dos Lugares Santos” que administrava as ajudas para a Terra Santa.
Com Carlos III e com a Bula Real de 1772 foram defendidos os direitos espanhóis do Patronato sobre os Lugares Santos em resposta à Bula “In Supremo”, do Papa Bento IV, aonde tais direitos não vinham mencionados. Esta Cédula Real foi uma formidável prova de protesto a todos aqueles que interessavam-se com os problemas da Terra Santa. Para defender os próprios direitos, o rei obrigou o Papa Pio VI, em 1878, a publicar o breve “Inter Multiplices”, no qual dava razão às reivindicações de Carlos III. Mas este documento foi sucessivamente revogado pelo mesmo Papa por causa da situação política na Espanha. Em 1846 com a Bula “Romani Pontifices” a Santa Sé reunificou a Caixa de Espanha e aquela das Nações em uma única Caixa, para o sustento da Terra Santa. Em 1853 criou-se o Consulado Espanhol em Jerusalém, encarregado de proteger os religiosos espanhóis em Terra Santa e de administrar o dinheiro mandado pelo Procurador Geral aos frades. Tudo isso para garantir que o dinheiro não acabasse nas mãos do Patriarcado Latino reconhecido em 1848. Sob a pressão de Isabel II de Espanha, em 1853, foram fundados: o “Colégio de Priego” e em seguida os Colégios de Santiago de Compostela e por fim o de Cipiona. 

Estes tinham como objetivo principal enviar os missionários à Terra Santa.
Enquanto era percorrido este último período que acabamos de apresentar, a Custódia continuava a ser marcada por muitas mortes causadas pela fé. Em 1530 os frades foram encarcerados por causa da legenda dos tesouros no Santo Sepulcro. Os infiéis tentaram empossar-se do famoso tesouro, mas não conseguiram apesar de terem deixado os frades presos por 27meses. Outra perseguição estourou na Palestina entre 1537 e 1540, quando os muçulmanos quiseram se vingar pela derrota em 1537. Mantiveram reféns os frades do Monte Sião e de Belém nas prisões de Damasco durante 38 meses. Em 1551 os frades foram expulsos do Monte Sião e tiveram que se empossar primeiramente da Torre do Forno e sucessivamente, em 1558, do atual Convento de São Salvador. Em 1548 deflagraram outras perseguições em Nazaré e os frades foram obrigados a se refugiar a Jerusalém. E a situação se repetiu no mesmo lugar entre os anos de 1632 e 1638. Outros frades pagaram com a sua vida por causa do ódio dos Gregos, por exemplo, o caso dos dois frades que viviam na Ilha de Candia, estes foram jogados no mar em 1560. Depois mais tarde, com a chegada de Napoleão à Terra Santa, deu-se em 1799 outras perseguições em Jerusalém e Ramleh. Como se não fosse o bastante, diversas vezes entre 1700 e 1800 o Oriente foi infestado pelas pestes que atingiram muçulmanos e cristãos. 

Chi siamo - chiavi

 

Em 1847 o Papa Pio IX, com a breve carta apostólica “Nulla Celebrior”, restabeleceu a sede Patriarcal Latina em Jerusalém. Nesta carta foram recordados os obstáculos que haviam impedido até então, ao patriarca latino, de residir à Jerusalém. Por isso, dada a mudança geral da situação, o Papa dava a jurisdição necessária obrigando o patriarca latino de ter a sua sede fixa em Jerusalém. A Custódia da Terra Santa continua a desenvolver a sua missão providencial em favor dos Lugares Santos e a multiplicar a sua atividade em benefício da população presente na área em que atua. Naquilo que diz respeito aos Santuários, encontramos os seguintes aspectos: em 1867 a Serva de Deus Paulina Nicolay doou à Custódia o Santuário de Emaús; em 1875 foi feito a aquisição da VII Estação da Via Sacra; em 1878 o Santuário de Naim; em 1879 concluíram-se as tratativas referentes ao Santuário de Caná da Galiléia; em 1880 foi o ano da conquista do Santuário de Betfagé; entre 1889 e 1950 a Custódia garantiu a posse da V Estação, do “Dominus Flevit”, de Tabga, de Cafarnaum, do Campo dos Pastores junto de Belém, do Deserto de São João Batista, do Monte Nebo, do local onde aconteceu o Batismo de Jesus às margens do Rio Jordão e de uma pequena área nas imediações do Santo Cenáculo e de Betânia. 
É principalmente durante este período em que a Custódia da Terra Santa expandiu e desenvolveu a sua obra de reconstrução parcial ou total dos Santuários. No início eram pequenas capelas sem intenção alguma. Os meios econômicos e as resistências sociais não permitiam fazer grandes edifícios. Sobretudo no século XX, os franciscanos tentavam entender melhor os sentimentos comuns dos seus fiéis que com toda razão exigiam que os Santuários fossem incrementados para a dignidade e favorecimento das devoções. Recordemos agora a multiforme atividade de construção dos seguintes templos religiosos: em 1901 a construção da Basílica de Emaús; de 1919-1924 a Basílica da Agonia no Getsêmani; de 1921-1924 a Basílica da Transfiguração no Monte Tabor; de 1952-1953 a construção do novo Santuário de Betânia; de 1953-1954 aquele do Campo dos Pastores nas proximidades de Belém; em 1955 o Santuário de “Dominus Flevit” na descida do Monte das Oliveiras; de 1955-1969 a Basílica da Anunciação em Nazaré.
Não obstante a tanto trabalho ainda é possível assistir a episódios de sangue derramado pelos frades, a exemplo do ano de 1860 na cidade de Damasco. Ouve aí o desencadear-se de uma perseguição dos Drusos contra os cristãos do Líbano e acabou alargando-se mais tarde em direção da Síria e Damasco. A perseguição se formou por causa do decreto assinado em Paris em 1856 por parte do Sultão Abdul-Megil, no qual o mesmo Sultão reconhecia igualmente a todos os seus súditos, sem distinção de raça ou religião. A perseguição resultou em cerca de sete mil mortos entre os quais o Beato frei Emanuel Ruiz e seus companheiros mártires. Outro caso de martírio ocorreu na Turquia em 1895 quando foi assassinado o frei Salvador Lilli, mártir que mais tarde veio canonizado.
O clima histórico daquele período pode até ser bem compreendido se fizermos uma leitura da crônica de um ato sanguinário ocorrido em Jerusalém em 1901, quando, também em conseqüência da imposição do Status Quo, criavam-se situações de grande tensão. Nesta ocasião os fatos da discussão eram relacionados aos direitos de varrer o pátio ao lado das escadas que dão acesso à capela, conhecida como Capela dos Francos. Os monges gregos agrediram os frades, deixando alguns deles com ferimentos graves por causa das pedradas que estavam depositadas nos terraços próximos ao pátio.
Por fim, em 1920, por causa da perseguição contra os armênios, três sacerdotes e dois frades foram mortos pelos turcos.
Para concluir esta síntese histórica da Custódia da Terra Santa citaremos as palavras da Exortação Apostólica Nobis in Animo, que o Papa Paulo VI emanou em 1974: “Não sem um designo providencial, as façanhas históricas do século XIII trouxeram à Terra Santa a Ordem dos Frades Menores. Os filhos de São Francisco, daquele momento em diante, permaneceram na Terra de Jesus para servir a Igreja Local e para custodiar, restaurar e proteger os Lugares Santos. A fidelidade destes frades, ao desejo de seu fundador e a incumbência dada pela Santa Sé, foi muitas vezes marcada por atos de extraordinária virtude e generosidade”.

Chi siamo - Gratias Agimus

Constituição Jurídica da “Custódia da Terra Santa”

Aos dilectos filhos, o Ministro Geral e o Ministro Provincial da Terra do Trabalho da Ordem dos Frades menores, Saúde e Bênção Apostólica.

1- Rendemos graças ao Dispensador de todas as graças, exaltando devidos louvores, porque despertou tão fervoroso zelo de devoção e de fé em nossos caríssimos filhos em Cristo, o rei Roberto e Sância, rainha da Sicília, ilustres no honrar o Redentor e Senhor Nosso, Jesus Cristo, que não cessam de realizar com incansável amor aquilo que convém ao louvor e à glória de Deus e à veneração e honra do Santo Sepulcro do Senhor e de outros Lugares (Santos) do Além-mar.

2- Faz bem pouco tempo, chegou a nós a feliz notícia de como o rei e a rainha, com grandes somas e cansativas negociações, obtiveram do sultão da Babilônia (= Cairo), (que ocupa o Santo Sepulcro e outros Lugares Santos no Além-mar, santificados pelo próprio sangue do Redentor, deixando os cristãos com muita vergonha), para que os Frades de vossa Ordem possam habitar continuamente na Igreja do mencionado Sepulcro e também celebrar lá dentro solenemente as Missas cantadas e o Ofício Divino, visto que já se encontram alguns Frades dessa Ordem naqueles lugares e, além disso, o mesmo sultão concedeu ao rei e à rainha o Cenáculo do Senhor, a capela onde o Espírito Santo apareceu aos apóstolos, e a outra capela em que Cristo, depois de sua ressurreição, se manifestou aos apóstolos, estando presente o beato Tomé; pois a rainha construiu um lugar (= convento) no Monte Sião, onde, como se sabe, estão o Cenáculo e as duas capelas citadas acima; porque já há tempo ela tinha a intenção de manter ali continuamente, por sua conta, doze Frades de vossa Ordem a fim de cumprir os Ofícios Divinos na Igreja do Santo Sepulcro, juntamente a três pessoas leigas a serviço dos mesmos Frades e para o atendimento de suas necessidades.

3- Por isso, a mencionada rainha, no cumprimento de sua pia devoção, bem como a do rei, suplicou-nos humildemente para que interviéssemos com nossa autoridade apostólica, a fim de providenciar para aqueles mesmos Lugares Santos o envio de Frades devotos, domésticos e idóneos, até que se chegue ao predeterminado número.

4- Por isso, nós, aprovando o pio e louvável propósito do rei e da rainha, e sua devota intenção, digna de bênçãos divinas, querendo auxiliar favoravelmente em seus votos e desejos, no que diz respeito à presente Bula, concedemos a todos e a cada um de vós plena e livre faculdade de chamar, agora e no futuro, à vossa presença, por autoridade apostólica e por pedido dos acima mencionados rei e rainha, ou de um dele, ou mesmo de seus sucessores, após ouvir o parecer dos conselheiros de vossa Ordem, aqueles Frades idóneos e devotos (tomados) de toda a Ordem, até ao número previsto.

5- E considerando a importância desse serviço, pensem em mandar aqueles que serão destinados ao serviço de Deus, tanto na Igreja do Sepulcro do Senhor como no Santo Cenáculo e nas capelas já mencionadas; e isso, depois de se ter informado quanto às atitudes daqueles Frades que chamareis, pelos seus Ministros Provinciais de vossa Ordem, da qual serão tomados temporariamente aqueles Frades designados e destinados àquelas regiões (do Além-mar); e, se algum deles venha a faltar, seja dada também a licença, sempre que for necessário, àqueles outros Frades que os substituirão, de morar naquelas regiões.

6- Concedemo-vos ainda a faculdade de forçar, após advertência, os (Frades) contestadores por meio de censuras eclesiásticas (apesar de qualquer proibição apostólica ou estatutos contrários da própria Ordem, reforçados por solene declaração, por confirmação apostólica ou por qualquer outro acordo, ou seja se pela Sede Apostólica for concedida a alguns, em geral ou em particular, a isenção de serem proibidos, suspeitos ou excomungados através de carta apostólica que não faça menção, em modo pleno, expresso e literal de um semelhante indulto).

7- Nós queremos que, quando esses Frades, uma vez designados, estarão (nas regiões) do Além-mar, estejam sob a obediência e o governo do Guardião dos Frades de vossa Ordem, em tudo o que é de sua competência e do Ministro Provincial da Terra Santa.


Papa Clemente VI
Data em Avignon, dia 21 de Novembro de 1342, primeiro ano do nosso Pontificado

Chi siamo - Status quo

O “Status quo”, ou mesmo ”Statu quo” como habitualmente é chamado na Terra Santa e em muitas publicações, se refere à situação em que se encontram as comunidades cristãs da Terra Santa nas suas relações com os governos das religiões. 

Especificamente o “Status quo” indica a conjuntura em que se deparam essas comunidades nos Santuários da Terra Santa. Situação que diz respeito tanto à propriedade quanto aos próprios direitos e também os direitos simultâneos com os outros ritos: no Santo Sepulcro, na Basílica da Natividade em Belém e no Túmulo de Maria em Jerusalém. 

A vida nos Santuários é impermeada por regimes políticos da Terra Santa, a situação encontrada hoje é fruto de um lento processo que acabou se solidificando. Durante os séculos XVII e XVIII, os gregos ortodoxos e católicos estiveram em contínua controvérsia em relação a alguns Santuários (Santo Sepulcro, Túmulo de Maria e Belém). Foi um período de “lutas fraternas e intervenções políticas”. Através destes doloridos acontecimentos se chegou a uma situação ratificada durante um acordo assinado em 8 de fevereiro de 1852 e indicado com o termo de “Status quo”.

O “Status quo” nos Santuários da Terra Santa, especialmente no Santo Sepulcro, determina os sujeitos da propriedade dos Lugares Santos. Determinado ainda, de forma concreta, os espaços dentro do Santuário como também os horários e os tempos das funções, os deslocamentos, os percursos bem como o modo em que devem ser realizados se lidos ou cantados por exemplo.

É necessário recordar que além dos latinos, as comunidades oficiais no Santo Sepulcro são: os gregos, os armênios, os coptas e os sírios. Com isso, cada mudança, por mais simples que seja, requer o acordo de todas as comunidades. No Santo Sepulcro estas comunidades se orientam segundo um calendário próprio para cada rito. No que se refere à comunidade católica, os franciscanos seguem as festas segundo o grau de solenidade que precede a reforma do Vaticano II (este foi um direito adquirido no Status quo).

Para melhor compreender tal situação, é necessário apreciar alguns acontecimentos históricos. Logo após o seu ingresso em Constantinopla, Maomé II proclamou o Patriarca Grego daquela cidade a autoridade religiosa e civil para todos os cristãos residentes em seu império. Com isso a comunidade ortodoxa da Grécia, aproveitando o fato de serem súditos do império otomano, pode influir na Terra Santa e exercitar mais influência sobre os sultões, conseguindo assim, vantagens em seu favor nas negociações referentes aos Santuários. O clero helênico conseguiu progressivamente substituir o clero nativo pelo seu clero grego. 

Desde 1634 o Patriarca Ortodoxo de Jerusalém será sempre um helênico. Neste período iniciam também as reivindicações da parte do clero helênico sobre os Lugares Santos. Em 1666 o Patriarca Ortodoxo Germano reivindicou os direitos ortodoxos da Basílica de Belém, como faziam anteriormente os Patriarcas Sofrônio IV (1579-1608) e Teofânio (1608-1644). Semelhantes reivindicações foram feitas em seguida exigindo o Santo Sepulcro em Jerusalém. 

Tais tentativas foram vetadas sobretudo graças à intervenção de Veneza e da França junto à ”Sublime Porta” (assim chamada a instância suprema no Império Otomano). 
Em 1633 o Patriarca Teofânio obteve uma assinatura retro datada ao tempo de Omar (638) que conferia ao Patriarca Grego ortodoxo os direitos exclusivos sobre a Gruta da Natividade, o Calvário e a Pedra da Unção. As Potências Ocidentais conseguiram obter, sobre a pressão do Papa Urbano VII, a anulação da assinatura. Todavia esta assinatura foi emanada uma segunda vez em 1637. Neste mesmo período Veneza, Austrália e Polônia estavam em guerra contra o Império, não tendo assim nenhuma influência a favor dos franciscanos. 
A situação se tornou mais dramática ainda em 1676 quando o Patriarca Dositeo (1669-1707) conseguiu outra assinatura com a qual obteve o uso exclusivo de posse do Santo Sepulcro. Em seguida houveram protestos ocidentais, e a Sublime Porta achou por bem nominar um tribunal especial para examinar os diversos documentos. Em 1690, com a oportuna assinatura, foi declarado pelo tribunal que os franciscanos seriam os legítimos proprietários da Basílica. Deste momento em diante as potências ocidentais foram sempre mais ativas em respeito ao Governo Otomano, para garantir os direitos católicos nos Lugares Santos. Foi assim que se prosseguiu com a paz de Carlowitz (1699), Passarowitz (1718), Belgrado (1739) e Sistow (1791). Todavia os resultados efetivos de tais intervenções não foram muitos. 

Em 1767, também em seguida aos muitos confrontos violentos e aos vandalismos que envolveram a população local, os Gregos Ortodoxos e os Franciscanos receberam por parte de Sublime Porta uma assinatura que concedia aos Gregos Ortodoxos a Basílica de Belém, o Túmulo de Maria e quase inteiramente a Basílica do Santo Sepulcro. Não obstante aos repetidos apelos do Papa Clemente XIII às potências ocidentais, a assinatura veio confirmada e fixou de maneira já definitiva a situação dos Lugares Santos até os dias de hoje, salvo alguns pequenos detalhes. No século XIX a questão dos Lugares Santos se transformou numa contenda política, especialmente entre a França e a Rússia. A França obteve a proteção exclusiva sobre os direitos dos católicos, enquanto isso, a Rússia conseguia sobre os cristãos ortodoxos. Em 1808 um grande incêndio na Basílica do Santo Sepulcro destruiu quase que completamente a edícula cruzada do Sepulcro. Os gregos obtiveram a permissão de reconstruir uma nova edícula, a mesma existente ainda hoje. Em 1829 aos armênios ortodoxos foram reconhecidos, de maneira definitiva, os atuais direitos na Basílica. Em 1847 os gregos retiraram a estrela de prata situada sob o lugar do nascimento do Senhor na Gruta de Belém. Sobre a estrela, havia uma escrita em latim que atestava assim a propriedade latina do lugar. Em 1852, o embaixador francês pediu, junto à Sublime Porta em nome das Potências católicas, reparação dos direitos dos franciscanos precedentes ao ano de 1767 e em particular a recolocação da estrela em Belém. O imperador otomano, com a pressão de Zar Nicola, refutou e emanou um mando com o qual decretava que o Status quo (isto é, conforme a situação vigente desde 1767), deveria ser mantido. Daí em diante, não obstante as inúmeras tentativas e as diversas guerras sucessivas a situação permaneceu imutável, mesmo que a estrela tenha sido colocada no seu lugar. Nem mesmo depois da ruína do Império Otomano e da criação do mandato britânico o Status quo foi modificado.

Tal situação hoje é considerada um fato conquistado. 

  • As relações entre as diversas comunidades cristãs ainda são reguladas pelo Status quo, porém são cordiais e amigáveis.
  • O diálogo ecumênico definitivamente conseguiu destemperar os conflitos históricos.
  • Não existe mais, pelo menos por parte dos católicos, a acusação de “usurpação” dos Lugares Santos. Muito pelo contrário, acredita-se hoje que a pluralidade de presença cristã nesses Lugares contribui a uma riqueza preciosa de se preservar.
  • Os periódicos encontros e as tratativas entre as diversas comunidades, hoje se concentram, sobretudo sobre as restaurações das Basílicas e sobre a possibilidade de uma melhor distribuição das diferentes liturgias.
  • As decisões são tomadas em comum acordo entre as diferentes comunidades religiosas, sem alguma intervenção do exterior, sejam essas de caráter político ou civil.

VIII Centenário da presença franciscana na Terra Santa

0s Frades reunidos em Acre, a 800 anos do início de sua presença na Terra Santa

800 anos, Padre Michael Perry:«A presença franciscanana Terra Santa é para toda a humanidade »

800 anos, Card. Sandri: "A missão da Custódia é oferecer ao mundo inteiro o tesouro de Jesus"

800 anos, Mons. Pizzaballa: "Nos Franciscanos vejo muito entusiasmo e o desejo de servir estas terras "

Por ocasião de 800 anos de presença franciscana na Terra Santa, o Christian Media Center produziu um documentário especial dividido em três partes. É uma viagem às origens da presença franciscana que leva ao nosso dia e às celebrações do oitavo centenário, que teve lugar em Jerusalém. ⇒ https://www.custodia.org/pt-pt/news/uma-longa-historia-de-800-anos-uma-longa-viagem-origens-da-presenca-franciscana-na-terra-santa

O oitavo centenário do encontro de S. Francisco e o Sultão

As celebrações dedicadas ao oitavo centenário do encontro entre São Francisco e o Sultão MalikAlKamel, organizadas nas cidades de Damieta e no Cairo pelos franciscanos da Província da Sagrada Família, chegaram à conclusão no último dia 3 do mês de março 2019. O cenário egípcio evoca diretamente o encontro que aconteceu há 800 anos entre o santo e o sultão, encontro este que fala até os dias de hoje a todos aqueles que fazem do diálogo e da coexistência a sua vida diária. ⇒ https://www.custodia.org/pt-pt/news/egito-o-oitavo-centenario-do-encontro-de-s-francisco-e-o-sultao

Os papas na Terra Santa e seu encontro com a Custódia

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O primeiro sucessor de S. Pedro, que realizou uma peregrinação na Terra Santa, foi Paulo VI, em janeiro de 1964, durante a celebração do Concílio Vaticano II. Chegou em Aman, Jordânia, onde encontrou-se com o rei Hussein. Dali deslocou-se em carro até Jerusalém, firmando-se em oração nas margens do rio Jordão e no convento franciscano de Betânia. Sua peregrinação tem grande importância histórica e simbólica para a Igreja. Paulo VI visitou os lugares em que Jesus viveu e onde passou, trazendo, como Jesus, a mesma mensagem de paz e amor.

O então Custódio da Terra Santa, o Revmo. Pe. Frei Lino Cappiello, acompanhou o Sumo Pontífice em sua passagem pela Jordânia.

Após estrepitosa acolhida na cidade velha de Jerusalém, por parte dos habitantes e peregrinos, que romperam os cordões de segurança e derrubaram a paliçada, em sua chegada, o Santo Padre alcançou, finalmente, o Santo Sepulcro, onde foi acolhido também pelos Frades Franciscanos. Aqui se firmou em recolhimento no túmulo vazio de Cristo, no qual depositou um raminho de oliveira feita de ouro, trazido de Roma; aqui celebrou a santa Missa, memorial da Paixão, e rezou pela unidade.

Serão sempre os Franciscanos a acolher o Sumo Pontífice no santuário da Anunciação, em Nazaré, então ainda em construção, mas foi benzido exatamente por Paulo VI nessa ocasião. Aqui, o Padre Custódio recebeu do Santo Padre preciosíssima coroa de brilhantes para o quadro da Anunciação.

A peregrinação aos Lugares Santos não dexou de lado lugares importantes como o Lago de Tiberíades, Cafarnaum e a Basílica da Transfiguração, no Monte Tabor, santuários aos cuidados dos Frades franciscanos.

A última etapa da viagem foi, enfim, caraterizada pela visita a Belém e pela importância dos discurso, pronunciado na Gruta da Natividade: mensagem ao mundo de “Paz e Bem” para todos.

 

O telegrama do Santo Padre ao Revmo. Pe. Custódio da Terra Santa

 

"Entre as inesquecíveis recordações, edificantes imagens, que ao nosso espírito comoveram, representam o itinerário de nossa peregrinação aos Lugares santificados pelos mistérios da redenção  cristã, amamos firmar a memória do pensamento sobre os encontros havidos com os diletos Franciscanos da Terra Santa, em suas casas de hospedagem, nos santuários que eles têm o privilégio de custodiar e nos Lugares em que promovem o culto perene em nome da Igreja Católica.

Alegramo-nos por colher ocasião propícia para elevar reverente pensamento de grata admiração pelos muitos beneméritos filhos de S. Francisco, que, no curso de sete séculos, realizaram com tanta devoção, precioso fecundo serviço de fiel apostolado na terra eleita por Jesus em admirável irradiação de fé viva, caridade ardente, zelo solícito.

Renovando a expressão de nossa reconhecida condescendência, reconhecida ao Senhor, aos Confrades todos da Custódia, invocamos do Divino Redentor abundante efusão de celestes favores e confortamos sua cuidadosa operosidade com nossa propiciadora Apostólica Bênção.

PAULO PP. VI

 

 

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A peregrinação de João Paulo II na Terra Santa durou sete dias: de 20 a 26 de março de 2000. Acolhido pelo Rei da Jordânia, Abdallah II e por toda a família real, o Sumo Pontífice inicia sua peregrinação jubilar em Aman, como havia feito seu predecessor Paulo VI. Também sua viagem foi assinalada pelo desejo de levar forte mensagem de paz e fraternidade: “Não importa quão difícil, não importa quão longo seja, o processo de paz deve continuar (afirmou no discurso em Aman). Presentes àquele encontro histórico, também o Padre Custódio Giovanni Battistelli e Frei Giácomo Bini, Ministro geral da Ordem dos Frades Menores, e outros representantes da Igreja Católica e Grega Ortodoxa.

 

No seu discurso sobre o Monte Nebo, João Paulo II saudou os presentes e o início de sua viagem, recordando as grandes figuras Moisés e Jesus Cristo, ao qual dedicou cada passo de sua peregrinação. Sua saudação, naquele primeiro dia, foi dirigida também aos filhos de S. Francisco e ao seu secular serviço de custodiar os Lugares Santos.

João Paulo II chegou à Terra Santa num momento histórico muito diferente daquele dos anos 60. Mesmo suas condições físicas marcam uma diferença com seu predecessor, mas a diferença é apenas sua saúde. O espírito e a mensaem são os mesmos: paz, fraternidade e justiça para todos os homens.

As pessoas, vindas de todos os ângulos para vê-lo, lhe dão calorosas boas-vindas, como já foram as calorosas boas-vindas dadas pelo Rei da Jordânia, pelo chefe do Estado de Israel, Ezer Weizman, e pelo Presidente a Palestina, Yaser Arafat.

 

Em Belém, João Paulo II encorajou o povo palestino, recordando que a Paz só é possível quando há respeito pelos Direitos Humanos e, depois, exortou a minoria cristã a não emigrar. Apoiado pelo Custódio, de um lado, e pelo Ministro Geral, de outro lado, desceu os degraus que levam à Gruta da Natividade, onde recolheu-se em oração por alguns minutos.

Importante e muito apreciada foi sua intervenção durante o encontro interreligioso no auditório do Hotel Notre Dame, em Jerusalém, no qual indicou exatamente o diálogo entre as diferentes religiões a estrada para a paz no mundo e na Terra Santa, em especial.

 

Não podia, certamente, faltar a visita à Basílica de Nazaré, já que toda a peregrinação parece ter sido organizada ao redor do fato da Anunciação. A acolhê-lo na entrada estavam o Padre Custódio Giovanni Battistelli e o Ministro geral da Ordem dos Frades Menores, Frei Giácomo Bini.

Entre os gestos não esperados, que passaram à História, encontra-se a Visista ao Muro Ocidental (das Lamentações) e a oração deixada numa de suas frestas. A última visita do Sumo Pontífice foi a do Santo Sepulcro, no último dia de sua peregrinação jubilar. Depois de ter celebrado a missa de manhã e ter almoçado na sede do Patriarcado Latino, surpreendentemente, pediu para retornar, de forma privada, ao Santo Sepulcro para subir ao Calvário, o qual, na visita matinal, havia apenas visto, ao deixar o Santo Sepulcro.

 

(Fontes desse texto: artigos de Franco Valente, OFM, e Giampiero Sandionigi, na revista da Terra Santa, 2000 e 2009)

Papi in Terra Santa - Benedetto XVI

 

"Uma peregrinação, ou melhor a peregrinação por excelência às fontes da fé; e, ao mesmo tempo, uma visita pastoral à Igreja que vive na Terra Santa: uma comunidade de especial importância, porque representa a presença viva lá onde tudo teve origem".

Essas são as palavras do Papa Bento XVI, ao retornar de sua vista na Terra Santa. Essas palavras são também a essência da presença franciscana e de sua missão de manter viva essa comunidade.

 

Bento na Gruta da Anunciação, em Nazaré

A visita de Bento XVI na Terra Santa é cheia de importância histórica e espiritual. As etapas da peregrinação de “Pedro” não mudam o significado profundo de seus discursos. Suas palavras na Terra Santa são de apoio e encorajamento para quem procura a paz, para quem busca unidade e para quem procura força para não abandoná-la.

“A Igreja na Terra Santa, que, muitas vezes, experimentou o obscuro mistério do Gólgota, não deve jamais  deixar d ser intrépido arauto da luminosa mensagem de esperança, que esse túmuo vazio proclama. O Evangelho nos diz que Deus pode fazer novas todas as coisas, que a história não necessariamente se repete, que as memórias podem ser purificadas, que os frutos amargos da discriminação e das hostilidades podem ser superados e que um futuro de justiça, de paz, de prosperidade e colaboração pode surgir para cada varão e mulher, para a inteira família humana e, em especial, para o povo que vive nesta terra, tão querida para o coração do Salvador”.

 Assim, Bento XVI encoraja os presentes que o ouviam diante do túmulo vazio, naquela mesma tumba “que mudou a história da humanidade”.

Uma viagem, em resumo, no sinal da fé e da esperança.

 

A Paz no sinal de S. Francisco

Mais de uma vez o Sumo Pontífice agradeceu aos Frades da Custódia pelo trabalho realizado na Terra Santa. Ele reconheceu o papel dos Frades como componente necessário na construção da paz, recordando a todos que S. Francisco mesmo foi um “grande apóstolo da paz e da reconciliação”.

 

Giuseppe Caffulli, “Pietro di nuovo al Sepolcro vuoto”, na revista “Terrasanta”, número 3, maio-junho de 2009, ano IV, da pág. 70 à pág. 72; e Introdução, pág. 03.

24-26 de maio de 2014

« Nesta basílica, que cada cristão contempla com profunda veneração, chega a seu ápice a peregrinação que estou fazendo com meu amado irmão em Cristo, Sua Santidade Bartolomeu. É graça extraordinária estarmos aqui, reunidos em oração. O Túmulo vazio é o lugar do qual parte o anúncio da Ressurreição: “Não tenhais medo! Sei a quem procurais Jesus, o crucificado. Não está aqui. Ressuscitou, na verdade, como havia dito; vinde, vede o lugar onde havia sido depositado. Depressa, ide dizer aos seus discípulos: ´Ressuscitou dos mortos’” (Mt 28,5-7). Esse anúncio, confirmado pelo testemunho daqueles aos quais apareceu o Senhor Ressuscitado, é o centro da mensagem cristã, transmitida fielmente de geração em geração. É o fundamento da fé, que nos une, graças à qual, juntos, professamos Jesus Cristo, unigênito Filho do Pai e nosso único Senhor ».

São as palavras do Papa, durante o encontro, no Santo Sepulcro.

O Papa Francisco havia anunciado sua visita à Terra Santa, durante a oração do Ângelus, no dia 05 de janeiro de 2014: “Em clima de alegria, típico deste tempo de Natal, desejo anunciar que de 24 a 26 de maio próximo, se Deus quiser, farei uma peregrinação à Terra Santa, para comemorar o histórico encontro entre o Papa Paulo VI e o Patriarca Athenágoras I, que aconteceu exatamente no dia 05 de janeiro, há cinquenta anos. As etapas serão três: Amman, Belém, Jerusalém. Três dias. No Santo Sepulcro, celebraremos um encontro ecumênico com todos os representantes das Igrejas cristãs de Jerusalém, com o Patriarca Bartolomeu de Constantinopla”.

Também hoje as crianças são sinal

Papa Francesco 1

Belém, 25 de maio de 2014

«O Menino Jesus, nascido em Belém, é o sinal dado por Deus a quem esperava a salvação. Também hoje, as crianças são um sinal. Sinal de esperança, sinal de vida, mas também sinal diagnóstico para compreender o estado de saúde de uma família, de uma sociedade, do mundo inteiro. Deus o repete hoje também a cada um de nós, varões e mulheres do século vinte e um: «Isto para vós é sinal », procurai o Menino…
Exatamente às crianças palestinas Papa Francisco concedeu tempo e ouvidos, antes de deixar Belém e Palestina. No campo de refugiados, em Dheisheh, o Papa encontrou-se com cem crianças, ensinando-lhes, com poucas e simples palavras, como desarmar o ódio e a violência e recomeçar sempre na vida: «Jamais pensem que o passado determina a vida. Olhem sempre para frente, trabalhem a fim de obter o que querem. A violência não se vence com violência. A violência é vencida com paz, trabalho, dignidade. Peço a Deus que os abençoe e peço-lhes de rezar por mim.

Celebração Ecumênica no Santo Sepulcro

Jerusalém, 25 de maio de 2014

Como há cinquenta anos – quando Paulo VI e Atenágoras se abraçaram sobre o Monte das Oliveiras, Papa Francisco e Patriarca Bartolomeu se encontraram no lugar mais significativo para todo cristão: o Santo Sepulcro. 

«É com tremor, emoção e respeito – afirmou o Patriarca de Constantinopla – que nos encontramos diante do “lugar onde Jesus foi depositado”, a vivificante tumba da qual emergiu a vida. E rendamos glória ao Deus misericordioso, que tornou dignos a nós, Seus indignos servos, da suprema bênção de nos tornar peregrinos no lugar em que se revelou o mistério da salvação do mundo. Este túmulo sagrado convida-nos a repelir outro temor, que talvez seja o mais difuso em nossa era moderna, a saber, o medo do outro, do diferente, o medo de quem adere a outra crença, a outra religião ou outra confissão. Diante dessa situação, a mensagem, que vem do túmulo, que dá a vida, é urgente e clara: amar o outro com suas diferenças, quem segue outras crenças e confissões».

«Contudo, declarou o Papa – há cinquenta anos desde o abraço daqueles dois veneráveis Padres, reconhecemos com gratidão e renovado estupor como tenha sido possível, por impulso do Espírito Santo, dar passos verdadeiramente importantes em direção à unidade. Devemos crer que, como foi retirada a pedra do sepulcro, assim podem ser removidos todos os obstáculos que ainda impedem a plena comunhão entre nós. Será a graça da ressurreição, que, já hoje, podemos degustar. Toda vez que pedirmos perdão um ao outro, pelos pecados cometidos nos confrontos para com outros cristãos e, cada vez, que tivermos coragem de conceder e receber esse perdão, faremos a experiência da ressurreição!». 
O abraço de amor de Jerusalém, no sinal do Papa Montini e de Atenágoras, é agora destinado a tocar os corações de quem crê, em todo o mundo.

Visita de surpresa no convento S. Salvador

Papa Francesco 3

Jerusalém, 25 de maio de 2014

Papa Francisco trocou o programa oficial e almoçou com os franciscanos, no convento S. Salvador. Nenhum Papa jamais o havia feito, apesar de o convento S. Salvador ser a casa central dos franciscanos da Terra Santa e os Papas ter celebrado nos Santuários custodiados pelos Filhos de S. Francisco. Foi momento de felicidade imensa. Os aplausos dos 95 Frades, presentes no refeitório, dentre eles muitos jovens, ouviram-se em toda a Jerusalém. O almoço foi muito simples. Pudemos experimentar a simplicidade, a “minoridade”, como diz frequentemente o própio Papa Francisco. Nas fotografias pode ser visto o amor do Papa por todos e também sua simplicidade e alegria. O que desejam que lhes diga? Para mim foi como se grande amigo tivesse chegado em visita. E com ele chegou a felicidade. Senti-me um pouco mais franciscano.

(Síntese do texto de Frei Artêmio Vítores, ofm).

O Papa no Getsêmani: Quem sou eu diante de meu Senhor, que sofre?

Jerusalém, 26 de maio de 2014

«Naquela hora, Jesus sentiu a necessidade de rezar e ter ao seu lado seus discípulos, seus amigos, que o haviam seguido e haviam partilhado, de forma bem próxima, sua missão. Mas, aqui, no Getsêmani, o seguimento torna-se difícil e incerto; assaltaram-nos a dúvida, o cansaço e o terror. No desenrolar da ameaça da paixão de Jesus, os discípulos terão diferentes atitudes diante do Mestre: atitudes de vizinhança, de afastamento, de incerteza. Será bom a todos nós, Bispos, Sacerdotes, pessoas consagradas, seminaristas, perguntarmo-nos, neste lugar: quem sou eu diante meu Senhor que sofre? ? Sou um daqueles que, convidados por Jesus a vigiar com Ele, pego no sono e, em vez de rezar, procuro fugir fechando os olhos diante da realidade? Ou me reconheço nos que fugiram por medo, abandonando o Mestre, na hora mais trágica de sua vida terrena? Há talvez em mim o fingimento, a falsidade daquele que o vendeu por trinta moedas, que havia sido chamado de amigo e, contudo, traiu Jesus? Reconheço-me nos que foram fracos e o negaram, como Pedro?».

Antes de deixar o Getsêmani, o Papa plantou uma oliveira no Jardim do Getsêmani, como já havia feito Paulo VI. Uma oliveira que, nos séculos futuros, falará das esperanças de paz e do testemunho que Papa Francisco quis semear com sua presença nesta terra.

O Papa no Cenáculo: aqui nasceu a Igreja, e nasceu em saída.

 

Jerusalém, 26 de maio de 2014

«É grande o presente que o Senhor nos faz, o de nos reunir aqui, no Cenáculo, a fim de celebrar a Eucaristia. Aqui, onde Jesus consumou a Última Ceia com os Apóstolos; onde, ressuscitado,apareceu no meio deles; onde o Espírito Santo desceu com força sobre Maria e os discípulos, aqui nasceu a Igreja, e nasceu em saída. Daqui partiu, com o Pão partido entre as mãos, as chagas de Jesus nos olhos, e o Espírito de amor no coração.
O Cenáculo recorda-nos a partilha, a fraternidade, a harmonia, a paz entre nós. Quanto amor, quanto bem brotou do Cenácolo! Quanta caridade saiu daqui, como um rio da fonte, que no início é córrego e, depois, se alarga e se torna grande… Todos os santos beberam aqui; o grande rio da santidade da Igreja sempre tem sua origem aqui, sempre renovado, do coração de Cristo, da Eucaristia, de seu Santo Espírito.
O Cenáculo, enfim, recorda-nos o nascimento da nova família, a Igreja, nossa santa mãe, a Igreja hierárquica, constituída por Jesus ressuscitado. Esse é o horizonte do Cenáculo, Cenáculo: o horizonte do Ressuscitado e da Igreja. Daqui parte a Igreja em saída, animada pelo sopro vital do Espírito».