O nome
O nome Belém parece ter sido indicado numa tabuleta cuneiforme encontrada no Egito, pertencente ao arquivo do faraó Aquenáton: nela se fala da cidade de Bit Lahmu, localizada no território de Jerusalém. É muito provável que o nome original da cidade derivasse de Lahmo, o deus caldeu da natureza e da fertilidade, cujo nome foi adotado pelo povo cananeu e modificado para Lahama.
Se aceitarmos esta hipótese, a tradução do nome Beit-el-Laham poderia ser “Casa de Lahama”, o que faria sentido tendo em vista que esta terra era muito fértil e rica em água. Além disso, no Antigo Testamento a cidade é chamada pelo nome Beth Lechem, “Casa do Pão”, e também Efrata, nome derivado da tribo que habitava estes lugares, e que significa literalmente “fecunda”.
Os nomes mais modernos também fazem referência à ideia de um lugar fértil e abundante: em árabe, Beit Lahm tem o significado de “casa da carne”, refletindo o grande número de rebanhos de ovelhas e cabras, uma das principais atividades da região. Já o hebraico Beit-Lehem significa “casa do pão”, noção que nos introduz à imagem de Jesus como o pão vivo que desceu do céu.
História antiga
No Antigo Testamento, a cidade é mencionada como a principal cidade e assentamento da tribo do rei Davi, estabelecida nestas terras por volta de 1200 a.C. A cidade também é mencionada nas Sagradas Escrituras como o local do túmulo de Raquel, esposa do patriarca Jacó. Estes tempos bíblicos foram marcados por séculos de guerras e divisões territoriais.
Em 586 a.C., o exército caldeu de Nabucodonosor, após ocupar a Judeia, deportou a população judaica para a Babilônia, onde viveu cinquenta anos de exílio. Ao final deste período, o rei persa Ciro II (“o Grande”) permitiu o retorno dos judeus, e a partir desse momento a cidade de Belém foi repovoada.
A Palestina, incluindo a cidade de Belém, foi ocupada por Alexandre, o Grande, em 333 a.C., e posteriormente submetida ao domínio dos ptolomeus entre 301 e 198 a.C., e depois ao dos selêucidas de Antioquia.
Entre 167 e 164 a.C. começaram as perseguições aos judeus e eclodiu uma revolta antissíria liderada pelos macabeus. A dinastia hasmoneia teve início em 134 a.C. e estendeu-se por todo o território, incluindo a cidade de Belém, durando cerca de 70 anos até a chegada das tropas romanas.
O período romano
Os territórios palestinos foram conquistados por Pompeu em 63 a.C. e permaneceram sob controle romano durante toda a vida de Jesus Cristo. Os territórios conquistados pelos romanos foram divididos em várias tetrarquias. Entre estas, a cidade de Belém ficou sob o controle do rei Herodes I (“o Grande”), que por volta de 30 a.C. mandou construir, nos arredores da cidade, um palácio fortificado chamado Heródio.
A época de que falamos foi marcada de forma decisiva pelo nascimento de Jesus Cristo, que deu início à era cristã e coincidiu também com uma grande revolta do povo judeu contra o domínio romano. Em 6 d.C., o etnarca Arquelau foi deposto e a Judeia foi incorporada à província imperial da Síria, administrada por procuradores sediados em Cesareia Marítima.
Quando Jerusalém foi destruída por Tito, em 70 d.C., Belém foi poupada. O lugar santo já era um local de culto para os primeiros cristãos, que veneravam a gruta onde Jesus havia nascido. Durante este período, as revoltas judaicas aumentaram de intensidade e foram reprimidas durante o reinado de Adriano, que decidiu construir em Belém um templo pagão dedicado a Adônis sobre a Gruta da Natividade, que seria soterrada e destruída juntamente com todos os sinais do cristianismo, como já havia acontecido com o Santo Sepulcro em Jerusalém.
O local ainda devia encontrar-se em estado natural, como seria descrito posteriormente por Jerônimo, que nos fornece este testemunho. Como atestado por Orígenes em seus escritos, sempre existiu uma memória clara de que foi neste lugar que Jesus nasceu. Devido às repressões brutais, muitos judeu-cristãos partiram, deixando a cidade nas mãos dos pagãos, que continuaram a praticar sua religião.
O período romano-bizantino
A liberdade religiosa foi proclamada após o Édito de Constantino em 313 d.C., e iniciou-se uma nova era para todos os lugares de culto cristão. Com o Concílio de Niceia (325 d.C.) e graças à firme vontade da imperatriz Helena, após as escavações necessárias começaram os trabalhos de construção da Igreja da Natividade, restituindo dignidade ao lugar santo ali preservado.
As obras terminaram em 333, como mencionado pelo anônimo Peregrino de Bordéus (Itinerarium 598). Belém tornou-se um grande centro religioso e, com a chegada de São Jerônimo em 384, iniciou-se uma nova fase, pois a cidade tornou-se um polo de atração para uma nova forma de vida monástica. Jerônimo deu uma contribuição fundamental à história da Igreja com a tradução da Bíblia Vulgata, a pedido do papa Dâmaso.
Outra figura de grande importância para o desenvolvimento do monaquismo em Belém, tanto masculino quanto feminino, foi a patrícia romana Paula, que, junto com sua filha Eustóquio, chegou a Belém em 386 e utilizou grande parte de sua herança para financiar a construção de dois mosteiros próximos ao local do nascimento de Jesus.
Após a morte de Jerônimo em 420, a vida monástica em Belém entrou em declínio e, no século seguinte, a cidade foi conquistada pelos samaritanos de Nablus, que durante sua revolta (521-528) contra o imperador bizantino saquearam igrejas e mosteiros e atacaram duramente os cristãos (529). Após essas destruições e a ruína da Igreja da Natividade, em 531 o imperador romano Justiniano, a pedido de São Sabas, restaurou o santuário e reconstruiu a cidade, então em ruínas. Nessa época, o maior dos tímpanos foi decorado com um mosaico representando os Magos com trajes persas.
Este detalhe revelou-se providencial, pois durante a invasão de Cosroes em 614 a basílica foi poupada da destruição, já que o exército persa se assustou ao ver o mosaico. Em 629, o imperador Heráclio reconquistou os territórios palestinos dos persas.
O período árabe-muçulmano
Com a ocupação árabe-muçulmana pelo califa Omar em 638, Belém também ficou sob este novo poder. Um clima de tolerância e convivência pacífica entre muçulmanos e cristãos foi garantido pelo gesto simbólico do califa que, após a ocupação da cidade, entrou para rezar junto à abside sul da igreja.
A partir desse momento, a igreja tornou-se um lugar de oração tanto para cristãos quanto para muçulmanos. Inicialmente, esta convivência pacífica foi respeitada, mas com a chegada de diferentes califados a situação dos cristãos em Belém deteriorou-se consideravelmente, culminando nas perseguições de 1009 por parte do califa fatímida al-Hakim, que ordenou a destruição dos santuários da Terra Santa. A Igreja da Natividade foi milagrosamente poupada, provavelmente devido à sua importância para o Islã, que reconhece ali o local de nascimento do profeta Issa, e também porque uma pequena mesquita estava integrada à basílica.
O período das Cruzadas
Este período marcou o início de uma nova fase na história da Terra Santa. Devido às difíceis condições de vida em Belém, os cristãos pediram ajuda a Godofredo de Bouillon, que se encontrava em Emaús. A chegada dos cruzados agravou as relações entre muçulmanos e cristãos, que esperavam a libertação da cidade. Um grupo de cavaleiros liderado por Tancredo conquistou Belém, dando início a um período de esplendor. As relações com a Europa intensificaram-se por meio do comércio e das peregrinações.
Os cruzados também transformaram a cidade, construindo um mosteiro para os cônegos agostinianos — onde hoje se encontra o convento franciscano — aos quais foram confiados os serviços litúrgicos e o acolhimento dos peregrinos, enquanto os ritos orientais puderam continuar a celebrar suas próprias liturgias.
Em 24 de dezembro de 1100, Balduíno I foi coroado primeiro rei de Jerusalém, e desde então Belém passou a depender diretamente do Patriarca de Jerusalém, tornando-se sede episcopal e centro diocesano. Entre 1165 e 1169, por vontade do bispo Rodolfo, foram realizadas obras de restauração da igreja, financiadas pelo rei cruzado Amalrico I e pelo imperador bizantino Manuel Comneno, sinal claro da unidade entre as Igrejas do Oriente e do Ocidente.
A derrota dos cruzados por Saladino em 1187, em Hattin, levou a uma nova ocupação de Belém. A comunidade latina deixou a cidade, retornando apenas em 1192, quando os muçulmanos permitiram a retomada dos serviços religiosos mediante o pagamento de um pesado tributo.
A história de Belém conheceu um momento especial com a viagem de São Francisco de Assis, que em 1219-1220 foi ao Oriente com doze frades. É provável que tenha visitado Belém, embora não haja fontes diretas que o confirmem. Sabe-se com certeza que, após chegar a Acre, Francisco foi ao Egito encontrar o sultão Malik al-Kamil, que lhe concedeu salvo-conduto para peregrinar pela Palestina. Alguns de seus companheiros permaneceram na Terra Santa a serviço da Igreja.
Graças a dois tratados — um entre o imperador Frederico II e o sultão do Egito, outro entre o rei de Navarra e o sultão de Damasco — Belém esteve sob controle do Reino Latino de Jerusalém entre 1229 e 1244. Esta situação durou pouco mais de uma década, pois a invasão dos corásmios em 1244 voltou a desestabilizar a região.
O período mameluco
Em 1263, com a invasão dos mamelucos do Egito, o sultão Baybars expulsou os cristãos de Belém e mandou destruir as muralhas fortificadas da cidade. Durante este período, os peregrinos só podiam visitar Belém mediante o pagamento de taxas.
Após a queda de Acre em 1291 e o fim do Reino Latino de Jerusalém, a Palestina permaneceu sob domínio mameluco até sua conquista pelo Império Otomano.
Os franciscanos em Belém
Os Frades Menores, presentes na Terra Santa desde o início do século XIII, estabeleceram-se definitivamente em Belém em 1347, num mosteiro dos cônegos agostinianos expulsos pelos mamelucos. Segundo antigas crônicas, o sultão concedeu aos frades a posse da Igreja e da Gruta da Natividade.
Os outros ritos cristãos obtiveram permissão para celebrar suas liturgias. A partir desse período, os franciscanos passaram a representar o rito latino em Belém e em outros Lugares Santos.
Em 1479, os franciscanos reconstruíram o telhado da igreja, graças ao empenho do guardião Giovanni Tomacelli. A madeira foi doada pelo duque Filipe, o Bom, da Borgonha, e transportada da Europa em navios venezianos, enquanto o chumbo foi oferecido pelo rei Eduardo IV da Inglaterra.
O período turco
Em 1517, a Palestina passou a fazer parte do Império Otomano e o sultão Selim I mandou demolir as muralhas restantes de Belém. A cidade entrou lentamente em decadência, e os cristãos, oprimidos e perseguidos, começaram a abandoná-la. Os direitos sobre a igreja foram divididos entre franciscanos e ortodoxos, causando conflitos contínuos.
Em 1852, o governo turco promulgou o chamado Status Quo, ratificando os direitos existentes nos santuários cristãos. Durante este período, numerosas congregações religiosas se estabeleceram na Palestina, dedicando-se a escolas, hospitais e casas de acolhida.
A data do nascimento de Jesus
Atualmente é consenso entre os estudiosos que o ano do nascimento de Cristo foi calculado incorretamente, devido a um erro do monge Dionísio, o Exíguo, no século VI. Segundo Flávio Josefo, Herodes morreu em 4 a.C., confirmado por um eclipse lunar ocorrido entre 11 e 12 de abril desse ano. Portanto, Jesus não poderia ter nascido após essa data.
Quanto ao dia e mês, os dados do Evangelho de Lucas e do calendário solar de Qumran indicam que a data tradicional de 25 de dezembro é historicamente plausível.
São Jerônimo
Nascido em Estridão, na Dalmácia, em 347, Jerônimo foi um dos maiores representantes do ascetismo monástico e Doutor da Igreja. Após estudos em Roma e uma intensa experiência espiritual, retirou-se para o Oriente e, mais tarde, para Belém, onde completou a tradução da Bíblia para o latim, conhecida como Vulgata.
Em Belém, com Paula e Eustóquio, fundou mosteiros, um hospício para peregrinos e uma escola monástica, dando origem ao primeiro assentamento monástico junto à Gruta da Natividade.
Jerônimo morreu em Belém em 30 de setembro de 420, após grande sofrimento físico, deixando à Igreja o tesouro inestimável de seus escritos.
Direitos sobre a terra e o santuário
O santuário, que não foi mencionado por Clemente VI em nenhuma de suas bulas de 1342, foi concedido aos franciscanos pelo sultão al-Muzaffar Hajji em 1346–1347, conforme nos relata o cronista franciscano Niccolò da Poggibonsi.
Não existe um firman (decreto) oficial que faça referência direta a esta concessão, mas ela é confirmada por uma citação contida num firman emitido em 1427 pelo sultão Barsbay. É muito provável que tenha sido Pedro IV de Aragão quem solicitou o santuário ao sultão do Egito, como ele próprio menciona explicitamente em duas cartas distintas, uma dirigida ao sultão e outra ao papa Inocêncio VI.
Em 1558, os líderes muçulmanos e cristãos de Belém declararam que os lugares de sepultura da cidade pertenciam aos franciscanos, e em seu hogget (veredicto) de maio de 1566, o tribunal de Jerusalém estabeleceu que todo o santuário da Natividade era propriedade dos religiosos francos, aos quais cabia a responsabilidade de abrir e fechar a igreja.
Em 1619, a Gruta da Natividade, cuja posse havia sido injustamente atribuída aos gregos, foi restituída aos latinos, que em 1717 colocaram uma nova estrela de prata no local do nascimento. Com a proclamação do Status Quo, a questão dos direitos de propriedade foi esclarecida de uma vez por todas.
Como consequência dos contínuos conflitos entre as diversas denominações, a Sublime Porta determinou que um soldado permanecesse sempre de guarda junto ao Altar da Natividade. Este decreto foi mantido até os dias atuais pelas diversas autoridades governamentais.
Etapas das escavações
1932 – Levantamentos iniciais da praça em frente ao santuário realizados por W. Harvey, E. T. Richmond, H. Vincent e R. W. Hamilton.
1934 – Pesquisas no interior do santuário realizadas por W. Harvey, E. T. Richmond, H. Vincent e R. W. Hamilton. Estas trouxeram à luz elementos pertencentes ao edifício sagrado constantiniano do século IV, em particular os mosaicos da nave e a área do presbitério, que tinha forma octogonal. Após as escavações foi produzida vasta literatura, entre a qual se destacam: W. Harvey em Archaeologia, vol. 87 (1937); E. T. Richmond em QDAP, vols. 5 e 6; P. Vincent em Revue Biblique (1936–1937); J. W. Crowfoot em Early Churches in Palestine (Londres, 1941); e R. W. Hamilton em The Church of the Nativity, Bethlehem (Jerusalém, 1947).
1947 – O padre Bagatti examinou os terrenos franciscanos adjacentes à igreja bizantina, bem como o Claustro de São Jerônimo, que então passava por uma restauração geral. Conseguiu identificar vestígios datáveis do período das Cruzadas. O padre Bagatti explicou as fases de estudo e escavação em sua obra Gli Antichi edifici sacri di Betlemme (“Os antigos edifícios sagrados de Belém”, Jerusalém, 1952), que permanece uma das últimas publicações completas sobre os elementos arqueológicos do santuário e de suas áreas circundantes.
1962–1964 – Escavações sob o mosteiro realizadas pelo padre B. Bagatti: grutas adjacentes à Gruta da Natividade.
Padre Bellarmino Bagatti
O padre Bagatti nasceu no município de Lari (província de Pisa) em 11 de novembro de 1905. Vestiu o hábito religioso na Província de São Francisco no Monte La Verna, na Toscana, aos dezessete anos, e foi ordenado sacerdote aos vinte e três.
Em reconhecimento aos seus talentos acadêmicos, foi convidado a frequentar o Pontifício Instituto de Arqueologia Cristã em Roma, onde obteve o doutorado com a mais alta distinção em 1936. Durante esse período iniciou sua carreira docente no Studium Biblicum de Jerusalém, ensinando topografia e arqueologia cristã.
Juntamente com o padre Sylvester Saller, iniciou a série SBF Collectio Maior (1941) e, com Donato Baldi, cofundou a revista SBF Liber Annus (1951). Após tornar-se diretor do Studium, ampliou seus programas e aumentou o número de professores. Também lecionou no Studium Theologicum Hierosolymitanum, em Jerusalém.
Recebeu numerosos prêmios acadêmicos e participou com frequência de congressos internacionais sobre arqueologia, Sagrada Escritura, o culto à Virgem, São José e a literatura apócrifa.
Entre as escavações que realizou destacam-se: o cemitério de Commodilla em Roma (1933–1934); o Santuário das Bem-Aventuranças (1936); a Igreja da Visitação em Ein Karem (1938); Emaús-Qubeibeh (1940–1944); Belém (1948); Dominus Flevit no Monte das Oliveiras (1953–1955); Nazaré (1954–1971); Monte Carmelo (1960–1961); Monte Nebo (1935); e Khirbet el-Mukhayyat.
Sua vocação como educador levou-o a promover iniciativas formativas inovadoras para o crescimento de seus frades, entre as quais o “Curso de atualização bíblico-teológica”, iniciado em 1969 e ainda hoje em vigor.
Graças à sua contribuição científica, os Lugares Santos já não podem ser considerados apenas como tradições piedosas dos franciscanos; a comunidade científica internacional reconhece hoje que esses sítios arqueológicos preservam a memória de lugares antigos e das primeiras comunidades judeu-cristãs.
Em particular, a participação de Bagatti nas escavações de Belém permitiu o estudo das áreas ao redor do mosteiro e adjacentes à Gruta da Natividade. Seu apoio científico contribuiu para uma compreensão mais precisa da natureza do octógono da época constantiniana, descoberto durante as escavações britânicas da década de 1930.

Em 2008, a Autoridade Nacional Palestina (ANP) autorizou a restauração da Igreja da Natividade por meio de um decreto do presidente Mahmoud Abbas. Foi criada uma Comissão de Restauração, presidida pelo engenheiro Ziad Albandak, assessor presidencial para assuntos cristãos, que elaborou um edital de licitação. Com base nesse processo, em setembro de 2010, foi alcançado um acordo entre as três instituições responsáveis pela basílica: o Patriarcado Ortodoxo Grego de Jerusalém, a Custódia da Terra Santa e o Patriarcado Armênio Ortodoxo de Jerusalém.
Tendo em conta os fundos inicialmente disponibilizados, iniciaram-se imediatamente os trabalhos de restauração do telhado — que não havia sido intervencionado desde 1832 e por onde se infiltrava a água da chuva — e dos 42 vitrais.
Em 22 de julho de 2013, as obras foram confiadas à empresa Piacenti S.p.A., de Prato, na Itália, especializada na restauração e conservação de edifícios protegidos, conjuntos monumentais e bens de interesse histórico e artístico. Os trabalhos tiveram início em 15 de setembro de 2013, e a primeira fase foi concluída em março de 2015. Em um ano e meio, foram instalados 1.625 metros quadrados de nova cobertura e 8% das estruturas de madeira do telhado foram substituídas por madeira antiga importada da Itália. As grandes janelas e as molduras de madeira foram totalmente recriadas. As novas, produzidas por um fabricante italiano, são de vidro duplo.
A partir desta fase, começaram a chegar fundos de diversos doadores, o que incentivou a Comissão a planejar outras intervenções de restauração, alcançando um orçamento de 11 milhões de euros. Decidiu-se restaurar o nártex e suas portas de acesso em madeira e metal, as fachadas externas em pedra (3.076 metros quadrados), os rebocos internos (3.600 metros quadrados), os mosaicos das paredes e do piso (125 metros quadrados) e as 50 colunas (das quais 28 apresentam afrescos com pinturas do século XII representando monges egípcios e palestinos).
Em dezembro de 2017, foram instalados um novo sistema de iluminação e um novo sistema de detecção de fumaça. A restauração do nártex permitiu a remoção de uma escora de madeira instalada na década de 1930, durante o Mandato Britânico.

A restauração dos mosaicos das paredes foi concluída em junho de 2016, com o retorno das cores brilhantes dos mosaicos e com uma surpresa: um sétimo anjo veio à luz; ele era considerado perdido e foi recuperado graças a uma técnica chamada termografia (um método que permite aos restauradores sondar superfícies sólidas em busca de obras ocultas pela passagem do tempo e pelo abandono). Em seguida, foram realizadas intervenções nas colunas e nos mosaicos do piso.
A ideia é encerrar o canteiro de obras até o final de 2019, mas ainda faltam arrecadar mais de 2 milhões de euros para financiar a última fase dos trabalhos que, ao longo de quase uma década, devolveram limpeza, funcionalidade e luminosidade ao complexo da Basílica da Natividade, em Belém.
Chegada à igreja
Ao passar pela Rua da Estrela em direção ao Santo Lugar da Natividade de Jesus, como fizeram os Magos do Oriente e, mais tarde, inúmeros peregrinos, à distância, e antes de chegar à praça em frente à igreja atual, fica-se impressionado com o encanto de um Lugar que, por séculos, atraiu milhões de visitantes de todo o mundo para adorá-lo.
Ao chegar à praça pavimentada em frente à igreja, o santuário da Natividade entra em vista. À primeira vista, não é fácil compreender a estrutura arquitetônica do complexo da igreja, que ao longo dos séculos passou por numerosas transformações. A estrutura remonta ao século VI e foi obra de arquitetos contratados pelo imperador bizantino Justiniano, que desejava reconstruir a basílica do século IV, destruída após a revolta dos samaritanos, como testemunhado por Eutíquio, Patriarca de Alexandria, em 876.
Olhando para a fachada, é possível distinguir várias seções que faziam parte do complexo da basílica e das estruturas anexas. Seu aspecto de fortaleza surgiu das exigências ao longo dos séculos para proteger a estrutura e as residências dos religiosos que cuidavam da igreja.
Vistas de frente, as paredes à direita abrigam os mosteiros armênio e grego, enquanto à esquerda pode-se ver a construção moderna da Casa Nova e o convento franciscano da época dos Cruzados.
Durante o período constantiniano, a praça atual fazia parte do átrio da igreja e era um espaço amplo e aberto. Isso foi confirmado por escavações que descobriram o perímetro da igreja do século IV.
Em frente à entrada, foram encontrados cisternas cujas bocas podem ser distinguidas no pavimento. A água da chuva entrava por elas e era armazenada para uso em ritos religiosos e na vida cotidiana dos mosteiros. A praça agora é cercada por um muro perimetral, cobrindo os lados sul e oeste.
Neste último lado, existia antigamente uma ampla porta que servia como entrada e também marcava o limite entre os edifícios sagrados e a vila.
A existência da porta, agora destruída, é confirmada pelos restos de suas fundações e pelos esboços de Bernardino Amico (século XVI) e Ladislau Mayr (século XVIII).
A fachada, cujo estilo, devido às contínuas modificações, não parece muito claro, pertence à estrutura do período de Justiniano. Um exame mais atento revela três portas de entrada, que foram posteriormente fechadas com paredes.
A fachada bizantina teria apresentado um aspecto majestoso e imponente, com suas três grandes entradas para a nave e duas dos corredores laterais. Comparada à estrutura constantiniana anterior, a fachada bizantina, precedida por um nártex, foi ampliada pela largura de uma intercoluminação.
A pequena porta de entrada é resultado de várias reduções de tamanho que ocorreram ao longo do tempo: pode-se reconhecer facilmente a grande porta central da época bizantina, com sua arquitrave horizontal e pedras colocadas diagonalmente.
Com a chegada dos Cruzados, a porta foi reduzida para se adequar ao estilo preferido pelos cavaleiros ocidentais, de modo a proteger melhor o Santo Lugar. Evidência visível disso é fornecida pelos restos do arco apontado que podem ser identificados nas paredes.
Durante o período otomano, as dimensões da porta foram ainda mais reduzidas, resultando no tamanho da porta atual, para impedir o acesso de pessoas que procurassem profanar o local de culto. Assim, a porta reflete, em certa medida, as fases alternadas do Cristianismo em Belém: períodos em que a liberdade de culto garantia o reconhecimento da fé cristã e outros em que perseguições e intolerância dificultavam a vida das comunidades locais.
As outras duas portas bizantinas, agora cobertas pelas paredes perimetrais da igreja e por contrafortes instalados durante o período dos Cruzados, permitem imaginar o senso de majestade e beleza que a igreja bizantina devia inspirar entre os que chegavam em peregrinação (como de fato é atestado por várias testemunhas).
Entrada na igreja
Ao passar pela pequena porta, entra-se na área conhecida tecnicamente como nártex, construída no período bizantino. Na antiga tradição cristã, o nártex era a área de entrada para os espaços sagrados, destinada aos catecúmenos que, durante certos momentos das celebrações, não eram permitidos entrar na igreja.
Durante o período constantiniano, não havia nártex, mas sim um átrio amplo e aberto que desempenhava função similar. O nártex de Justiniano foi dividido em quatro áreas, uma delas servindo como área de entrada da igreja.
Durante o período dos Cruzados, as áreas nas duas extremidades serviam de base para as torres de sino de quatro andares que foram construídas. Uma quarta área à esquerda da porta de entrada é usada pelos soldados que, desde o período turco, guardam a igreja. O episódio é relatado com elementos milagrosos pelo peregrino Jean Boucher.
A porta de entrada, hoje coberta por andaimes, foi um presente do rei armênio Hethum em 1227, como indicado na inscrição em árabe e armênio.
As duas torres de sino, mencionadas pela primeira vez nas Travels of Sir John Mandeville entre 1322 e 1357, foram construídas durante o período dos Cruzados. Situavam-se nas extremidades do nártex, onde hoje encontram-se as entradas para o mosteiro armênio e a capela do convento franciscano de Santa Helena.
Além de servirem como torres de sino, também funcionavam como torres de vigilância, com vista para a área circundante. O período em que as duas estruturas foram construídas é confirmado pelas áreas intactas nos níveis inferiores, caracterizadas por elementos arquitetônicos cruzados, como arcos apontados.
O peregrino Bernardino di Nali (século XV) descreveu-as em suas memórias como estruturas muito elegantes. Os sinos não estariam mais no local naquele momento, já que, como mencionado pelo Padre Félix Faber (1480-1483), os sarracenos não permitiam que os cristãos possuíssem sinos. As torres de sino visíveis hoje são construções posteriores, partes dos mosteiros ortodoxos grego e armênio.
O nártex foi modificado e significativamente reduzido em comparação com sua forma original. O piso é do século VI, mas as paredes cobertas de gesso não refletem sua beleza original, pois toda a igreja teria sido revestida de mármore com veios brancos.
Com base em pesquisas sobre arquitetura bizantina, assume-se que o nártex não era apenas decorado com mármore, mas também adornado com mosaicos. Após a restauração a ser realizada em breve, e com a remoção do gesso, as decorações em mosaico nas paredes serão novamente visíveis.
Como mencionado, o nártex de Justiniano foi dividido em quatro áreas, e durante o período dos Cruzados, as duas áreas nas extremidades serviam de base para as torres de sino de quatro andares que foram erguidas.
Dessas duas áreas, caracterizadas por arcos típicos do estilo cruzado, uma é hoje usada como portaria do mosteiro armênio, enquanto a outra é conhecida como Capela de Santa Helena, propriedade dos frades franciscanos.
As paredes na entrada do mosteiro armênio foram limpas e restauradas ao seu estado original: ainda é possível ver buracos nas pedras usados para fixar o mármore que originalmente adornava as paredes. O gesso nas paredes do nártex dificulta a compreensão da verdadeira escala das portas laterais, visíveis apenas do interior da igreja, onde as paredes estão cobertas com gesso em deterioração.
Esta área é passagem obrigatória para todos os peregrinos que desejam entrar na igreja a partir da praça e representa uma área comum às três comunidades. Por esta razão, tem sido muito difícil chegar a um acordo sobre as obras de manutenção necessárias para reforçar a estrutura.
Porta de entrada
A porta de madeira, com 700 anos de história, foi um presente do rei armênio Hethum, filho de Constantino de Baberon, em 1227, como se lê na inscrição em árabe e armênio:
"A porta da Bem-Aventurada Mãe de Deus foi feita no ano 676 [segundo o calendário armênio] pelas mãos do Padre Abraão e do Padre Arakel, no tempo de Hethum, filho de Constantino, rei da Armênia. Deus tenha misericórdia de suas almas."
A inscrição em árabe fornece elementos cronológicos adicionais de interesse:
"Esta porta foi concluída com a ajuda de Deus, que seja exaltado, nos dias de nosso Senhor o Sultão al-Malik al-Mu’azzam, no mês de Muharram, no ano 624 [calendário islâmico]."
Este presente é evidência das boas relações existentes na época entre as Igrejas Armênia e Cruzada. A porta, inicialmente de muito bom trabalho, mas mal preservada devido ao desgaste do tempo e à falta de cuidado, possui decoração floral típica do estilo armênio.
Hoje não é mais completamente visível, pois está coberta por andaimes instalados pelo governo palestino para auxiliar na sustentação das vigas do teto, que se encontram em estado muito instável.
Interior da igreja e mosaicos
No interior, a igreja preservou todos os elementos arquitetônicos do século VI. Quando o imperador bizantino viu o projeto pela primeira vez, desaprovou as escolhas do arquiteto, acusando-o de ter desperdiçado fundos, e ordenou sua decapitação. Apesar da insatisfação do imperador, o edifício se mostrou muito sólido, sobrevivendo intacto até os dias de hoje.
Escavações realizadas pelo governo britânico em 1932 mostraram que o piso da era constantiniana havia sido completamente coberto com mosaicos finamente trabalhados, exibindo decorações geométricas e florais.
Entre estes, destaca-se o remanescente de mosaico preservado a oeste do presbitério, onde, ao levantar a tampa de madeira, pode-se ver o monograma ΙΧΘΥΣ (“peixe” em grego), usado na antiguidade para indicar o nome de Cristo. Hoje, o piso é feito de pedras simples e ásperas, mas o piso da época bizantina possuía lajes de mármore branco com veios particularmente acentuados. Um remanescente disso pode ser visto na área do transepto norte.
O pavimento constantiniano era ligeiramente inclinado em relação ao piso atual, que está cerca de um metro acima do nível original. O espaço interno, dividido por colunas em uma nave e quatro corredores laterais, é escuro e pouco iluminado. No século VI, a igreja estava completamente revestida de mármore: ainda é possível ver os buracos usados para fixar o mármore nas paredes rebocadas.
A colunata, que hoje termina no final da área do ábside, continuava, criando um deambulatório ao redor da Gruta da Natividade. Este tipo de estrutura arquitetônica era usado em diversos Lugares Santos, especialmente os de mártires, porque, segundo a tradição, os peregrinos que caminhavam repetidamente ao redor do local sagrado obtinham graça.
As colunas e capitéis, feitos de pedra vermelha de Belém, são originais do período bizantino, obra de artesãos locais. Os capitéis, trabalhos de requintada arte, eram pintados de azul. Nas colunas havia representações de diversos santos do Oriente e do Ocidente, religiosos e leigos. As arquitraves também são deste período, embora sua ornamentação remonte apenas à época dos Cruzados, sendo muito semelhante à das arquitraves da Igreja do Santo Sepulcro, também desse período.
As altas paredes da nave são decoradas com magníficos mosaicos do século XII, obras de mestres orientais. Os mosaicos estão divididos em três grupos e mostram, de baixo para cima: a genealogia de Jesus, os concílios e sínodos locais e, no topo, uma procissão de anjos.
Segundo um relato grego do século IX, havia decorações adicionais em mosaico da época bizantina. Entre estas, destacava-se a representação dos Magos que chegaram a Belém para adorar Jesus, que adornava a fachada. Um evento singular ocorreu em 614 d.C., quando soldados persas que invadiam a cidade se assustaram com o mosaico e desistiram de saquear a igreja, que assim permaneceu intacta.
Os transeptos, que ainda preservam o piso original em mármore do período bizantino, hoje estão decorados com ícones e paramentos das tradições ortodoxas grega (transepto direito) e armênia (transepto esquerdo). Esta parte da igreja também preserva decorações em mosaico representando cenas dos Evangelhos.
O piso da igreja constantiniana original era totalmente coberto de mosaico. Isso foi descoberto nas escavações realizadas pelo governo britânico entre 1932 e 1934. O piso do século IV subia em direção ao ábside, com uma diferença de nível variando entre 75 e 31 centímetros. Durante o período bizantino, devido às variações de nível do piso dentro da igreja, o piso foi refeito usando mármore com veios brancos. Por tampas abertas no pavimento ainda é possível ver os antigos mosaicos.
O trabalho era realmente detalhado e refinado, especialmente os da nave. Calculou-se que a densidade de tesselas (pequenos quadrados de pedra ou vidro) era de 20 por cm², comparada a 10 por cm² dos mosaicos comuns.
Este fator por si só mostra por que essas decorações são tão valorizadas, pois a maior densidade permitia representar imagens mais refinadas e reproduzir mais nuances de cor. O resultado foi um mosaico extremamente detalhado, refletindo a importância deste Santo Lugar.
Os mosaicos, que cobrem a nave e o ábside, exibem elementos geométricos e decorativos (suásticas, círculos e cornijas com fitas entrelaçadas). Temas vegetais são mais raros, como folhas de acanto e videiras. Ainda mais raro é a representação de um galo no transepto norte. A ausência de seres vivos está de acordo com a tradição do Oriente Médio, que não utilizava representações de animais ou humanos.
Um elemento muito interessante da decoração em mosaico está no canto esquerdo da nave, onde, abrindo uma tampa, pode-se ver um monograma com as letras ΙΧΘΥΣ. O símbolo, usado na antiguidade para indicar o nome de Cristo (“Ιησοῦς Χριστός Θεoῦ Υιός Σωτήρ”), significa literalmente “peixe”: é o único símbolo certo de cristandade do local. Um uso semelhante do monograma ocorria na época clássica na entrada de casas patrícias romanas, junto com bustos dos proprietários. Por isso, supõe-se que o monograma marcava o ponto da antiga entrada para a área sagrada e para a “casa de Jesus”.
Colunas e Capitéis
As colunas internas são feitas de pedra vermelha local, típica de Belém, e foram trabalhadas por artesãos do período bizantino. Os capitéis apresentam ornamentação clássica com elementos coríntios, mas também decorados com motivos locais, como folhas de acanto estilizadas. Originalmente, os capitéis eram pintados em azul e dourado, cores que hoje estão praticamente apagadas devido ao tempo e à umidade.
O conjunto de colunas e capitéis sustentava arquitraves que delimitavam a nave central dos corredores laterais. As arquitraves originais eram simples, mas algumas decorações foram acrescentadas no período dos Cruzados, em estilo romano-oriental.
Transeptos e Ábside
A igreja possui dois transeptos laterais, norte e sul. No transepto norte, hoje pertencente à comunidade ortodoxa grega, encontra-se um pavimento parcialmente preservado em mármore, datando do período bizantino. No transepto sul, administrado pela comunidade armênia, o piso também mantém vestígios do pavimento original.
O ábside central é o ponto focal da igreja e preserva o piso antigo em mármore com veios brancos. Durante o período bizantino, o ábside era decorado com mosaicos representando cenas dos Evangelhos, embora a maior parte tenha sido perdida ao longo dos séculos. O espaço ao redor do ábside incluía um deambulatório, permitindo que os peregrinos circulassem em torno da Gruta da Natividade.
Mosaicos e Iconografia
Os mosaicos do século XII cobrem partes das paredes e da abside, retratando figuras de anjos e cenas bíblicas. Os mosaicos geométricos, com swásticas e círculos entrelaçados, são complementados por fitas e elementos vegetais, como folhas de acanto e videiras. Um detalhe curioso é a representação de um galo no transepto norte, elemento raro na arte cristã do Oriente Médio.
A área da nave e do ábside possui mosaicos com densidade de tesselas de até 20 por cm², permitindo riqueza de detalhes e nuances de cor, um nível de precisão superior ao mosaico comum da época. Este alto detalhamento reflete a importância do local como centro de peregrinação cristã.
No canto esquerdo da nave, um monograma ΙΧΘΥΣ, símbolo do cristianismo primitivo, ainda é visível sob uma tampa, indicando o local de entrada original para a área sagrada e possivelmente a “casa de Jesus”.
Presbitério e Grutas
O presbitério fica elevado em relação à nave, seguindo o estilo bizantino. Aqui se situa o altar principal e a entrada para a Gruta da Natividade. A gruta, local exato do nascimento de Jesus segundo a tradição, é acessível por escadas que descem a partir do presbitério.
A Gruta da Natividade é um espaço retangular com paredes revestidas de mármore, parcialmente cobertas por painéis decorativos, ícones e luminárias. No centro, encontra-se a estrela de prata que marca o local exato do nascimento de Cristo. Ao redor, velas e lanternas lembram a devoção contínua dos peregrinos que visitam o local há séculos.
Conventos e Comunidades
Ao longo dos séculos, diversas comunidades cristãs ocuparam diferentes partes da igreja. À esquerda da entrada, os frades franciscanos administram a Capela de Santa Helena e parte do convento. À direita, a comunidade armênia mantém o mosteiro e algumas áreas de culto. A comunidade grega ortodoxa cuida do transepto norte e de algumas capelas menores.
As disputas históricas sobre direitos e uso do espaço são documentadas desde os Cruzados, mas atualmente as três comunidades mantêm um sistema de cooperação delicado, baseado em tradições e acordos antigos, conhecidos como Status Quo.
Restaurações e Conservação
Ao longo dos séculos, a igreja sofreu danos por guerras, invasões e desastres naturais. As últimas grandes restaurações começaram no século XX, focando na preservação dos mosaicos, das colunas e do piso em mármore.
Recentemente, andaimes foram instalados para reforçar o teto, que se encontra instável, enquanto pesquisas arqueológicas continuam a revelar vestígios da construção original e da decoração bizantina. Espera-se que futuras intervenções permitam a recuperação de partes dos mosaicos cobertos por gesso e a restauração das paredes com mármore e ornamentos originais.
Conclusão
A Basílica da Natividade em Belém é um testemunho vivo da história cristã, desde o período bizantino até os dias atuais. Cada elemento da igreja, do nártex às grutas subterrâneas, das colunas aos mosaicos, reflete séculos de devoção, arte e arquitetura.
A igreja continua a atrair milhões de peregrinos todos os anos, que vêm não apenas para venerar o local do nascimento de Jesus, mas também para testemunhar a riqueza histórica, cultural e espiritual preservada neste Santo Lugar.
No Antigo Testamento
A cidade de Belém é mencionada 44 vezes no Antigo Testamento e recebe o nome de “Belém da Judeia”, da tribo a que pertencia, para distingui-la da localidade homônima pertencente à tribo de Zebulom, na Galileia.
Belém é mencionada na Bíblia pela primeira vez em referência a Raquel, esposa de Jacó, que morreu nas proximidades ao dar à luz a Benjamim, “o filho de sua velhice”. Ela foi enterrada ao longo do caminho que levava de Jerusalém a Belém (Gn 35:19).
Devemos também mencionar a história de Elimeleque e sua esposa Noemi, que, após residirem no planalto de Moabe, retornaram a Belém com sua nora Rute. Rute, por sua vez, casou-se com Boaz e de sua descendência nasceu Jessé, pai de Davi.
Uma das grandes glórias de Belém é ter sido o local de nascimento de Davi, que foi coroado Rei de Israel ali, em lugar de Saul, pelo profeta Samuel, por ordem de Deus (1Sm 16:1-14). Davi, o mais jovem dos irmãos, foi escolhido por um sinal do Senhor. Seu encanto e grande coragem o tornaram imediatamente uma figura de destaque no reino, tornando-se rei dos judeus. Por essas razões, Belém ainda é conhecida como a “cidade de Davi”. Mas sua verdadeira grandeza reside em ser a cidade onde nasceu Jesus, Messias e Filho de Deus.
O profeta Miqueias havia predito isso nestes termos: “E tu, Belém Efrata, pequena demais para figurar entre os milhares de Judá, de ti me sairá aquele que será governante em Israel; e cujas origens são desde os tempos antigos, desde a eternidade” (Mq 5:1).
O Messias, segundo o profeta Miqueias, além de nascer em Belém, também seria descendente de Davi segundo a carne. E assim, nos arredores de Belém floresceu o idílio de Rute, que viveu com Boaz (Rt 2:8-22). Do casamento deles nasceu Obede, pai de Jessé, que foi pai de Davi, à cuja família pertencia José, esposo de Maria e suposto pai de Jesus.
No Novo Testamento
A fé no cumprimento do anúncio profético do nascimento em Belém de um descendente de Davi estava bem enraizada na tradição judaica na época de Jesus. De fato, quando Herodes perguntou aos principais sacerdotes onde o Messias deveria nascer, eles responderam sem hesitação: “Em Belém da Judeia, pois assim foi escrito pelo profeta” (Mt 2:5).
Tanto Mateus quanto Lucas se referem ao nascimento de Jesus “em Belém da Judeia, nos dias do rei Herodes” (Mt 2:1) e na “cidade de Davi chamada Belém” (Lc 2:4).
Lucas relata ainda que José, membro da casa de Davi, acompanhado de Maria, sua noiva, que estava grávida, partiu de Nazaré para Belém, por causa do censo romano que obrigava todos os judeus a se registrarem em sua cidade de origem. O relato de Mateus, por outro lado, parece sugerir que Maria e José sempre foram residentes de Belém e só mais tarde se mudaram para Nazaré.
Outros eventos relacionados ao nascimento de Jesus também aconteceram em Belém. Lucas narra a vinda dos pastores (Lc 2:8-20), enquanto Mateus acrescenta a história da chegada dos Magos do Oriente e sua jornada a Belém (Mt 2:1-12), assim como a do Massacre dos Inocentes e a fuga da Sagrada Família para o Egito (Mt 2:13-23).
A espera: Maria e José
Evangelho segundo Mateus 1:1-25
O livro da genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão. Abraão tornou-se pai de Isaque, Isaque pai de Jacó, Jacó pai de Judá e seus irmãos.
Judá tornou-se pai de Perez e Zerá, cuja mãe era Tamar.
Perez tornou-se pai de Hezrom, Hezrom pai de Ram, Ram pai de Aminadabe.
Aminadabe tornou-se pai de Naassom, Naassom pai de Salmon, Salmon pai de Boaz, cuja mãe era Raabe.
Boaz tornou-se pai de Obede, cuja mãe era Rute. Obede tornou-se pai de Jessé, Jessé pai de Davi, o rei.
Davi tornou-se pai de Salomão, cuja mãe havia sido a esposa de Urias.
Salomão tornou-se pai de Roboão, Roboão pai de Abias, Abias pai de Asa. Asa tornou-se pai de Josafá, Josafá pai de Jorão, Jorão pai de Uzias.
Uzias tornou-se pai de Jotão, Jotão pai de Acaz, Acaz pai de Ezequias. Ezequias tornou-se pai de Manassés, Manassés pai de Amom, Amom pai de Josias.
Josias tornou-se pai de Jeconias e seus irmãos, na época do exílio babilônico.
Após o exílio babilônico, Jeconias tornou-se pai de Salatiel, Salatiel pai de Zorobabel, Zorobabel pai de Abiúde. Abiúde tornou-se pai de Eliaquim, Eliaquim pai de Azor, Azor pai de Sadoc.
Sadoc tornou-se pai de Aquim, Aquim pai de Eliúde, Eliúde pai de Eleazar.
Eleazar tornou-se pai de Matã, Matã pai de Jacó, Jacó pai de José, esposo de Maria.
Dela nasceu Jesus, chamado o Messias. Assim, o número total de gerações de Abraão a Davi é catorze gerações; de Davi ao exílio babilônico, catorze gerações; do exílio babilônico ao Messias, catorze gerações.
E assim aconteceu o nascimento de Jesus Cristo.
Quando sua mãe Maria foi desposada com José, mas antes de viverem juntos, ela foi encontrada grávida pelo Espírito Santo. José, seu esposo, sendo justo, mas sem querer expô-la à vergonha, decidiu divorcíar-se dela em segredo.
Com essa intenção, eis que o anjo do Senhor lhe apareceu em sonho e disse: “José, filho de Davi, não temas receber Maria como tua esposa, pois o que nela foi gerado é do Espírito Santo.
Ela dará à luz um filho, e você lhe dará o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos pecados.” Tudo isso aconteceu para que se cumprisse o que o Senhor havia dito pelo profeta: “Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e chamá-lo-ão Emanuel”, que significa “Deus conosco”.
Ao acordar, José fez como o anjo do Senhor lhe ordenara e recebeu sua esposa em sua casa. Ele não teve relações com ela até que ela desse à luz um filho, e ele o chamou de Jesus.
(Nova Bíblia Americana – Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos)
Todos conhecemos a história da Sagrada Família, apresentando-se a nós com toda a ternura de uma família humilde de Nazaré, cujos eventos iluminaram a história da humanidade.
A história deles é de obediência à Vida e à Vontade de Deus, que se manifestou ao casal, exigindo deles imensa fé e grande coragem.
Maria, antes de dar à luz a Jesus, vivia com José em Nazaré. Após o anúncio do Anjo à Virgem Maria sobre a concepção do Filho de Deus, Maria respondeu positivamente, sem hesitação, ansiosa por cumprir a vontade de Deus.
Mais tarde, José, o Justo, também teria que aceitar a mesma obediência, acolhendo Maria apesar de ela estar grávida de um filho que não era seu. E assim foi que, nesta história de fé em que o Eterno escolheu se manifestar na história, o imperador romano Augusto ordenou que fosse feito um recenseamento em todo o Império Romano.
Como resultado, José e sua esposa, que estava em estado avançado de gravidez, foram obrigados a deixar Nazaré e ir para Belém, cidade de seus antepassados, para se registrarem. Foi assim, aparentemente apenas por acaso, que Maria deu à luz em Belém. Sem conseguir encontrar alojamento mais adequado, ficaram em uma caverna, semelhante a muitas outras localizadas nos arredores da cidade.
Foi então que, como narram os Evangelistas: “Enquanto estavam ali, chegou o tempo de ela dar à luz, e deu à luz seu filho primogênito. Envolveu-o em panos e o deitou numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria” (Lc 2:6-7). Nesta espera, e na imagem da Sagrada Família, temos diante de nós uma cena da vida cotidiana que nos faz refletir sobre a figura maternal de Maria, a “melhor das mães” (como disse o Papa Pio IX), e sobre a paternidade de José, o melhor dos pais terrenos.
É realmente importante para nós, cristãos, manter a Sagrada Família em mente como modelo e exemplo da família humana para todos os tempos.
A Revelação: Natal e a luz divina
Evangelho segundo Lucas 2:1-7
Naqueles dias, saiu um decreto de César Augusto de que todo o mundo fosse registrado.
Este foi o primeiro registro, quando Quirino era governador da Síria. Então todos foram registrados, cada um em sua própria cidade.
Também José subiu da Galileia, da cidade de Nazaré, para a Judeia, para a cidade de Davi, chamada Belém, porque era da casa e família de Davi, para ser registrado com Maria, sua esposa, que estava grávida.
Enquanto estavam ali, chegou o tempo de ela dar à luz, e deu à luz seu filho primogênito. Envolveu-o em panos e o deitou numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria.
(Nova Bíblia Americana – Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos)
A história do nascimento de Jesus, como emerge dos Evangelhos, é muito concisa e não é adornada com detalhes poéticos ou fenômenos miraculosos. O Evangelista Lucas, utilizando a linguagem de um cronista, nos conta que durante a estadia em Belém chegou o tempo de Maria dar à luz (Lc 2:6-7).
A manjedoura é mencionada nesse relato, e nos é fornecida uma imagem muito “cotidiana” de Maria. Como todas as mães, após nove meses de espera e após o parto, ela envolve o recém-nascido em panos e o coloca em um lugar seguro. Pelo relato, nada de extraordinário parece ter ocorrido, e ainda assim esse nascimento mudou radicalmente o curso da história.
Jesus, Filho de Deus, nascido de uma mulher e, portanto, nascido como todos os seres humanos, está sujeito à totalidade da experiência humana. Por meio deste Menino Jesus, Deus deseja encontrar-se com o homem, quer se aproximar dele. São João dirá: “Deus enviou seu Filho” (1 Jo 4:9), esclarecendo a natureza divina de Jesus, que escolheu tomar forma corporal para viver a condição humana e mostrar ao homem o caminho para chegar ao Pai.
O Evangelho de Marcos também é muito conciso. Em primeiro lugar, o Evangelista busca deixar claro que Maria teve Jesus sem “conhecer” José, indicando que Jesus nasceu pelo trabalho do Espírito Santo e reafirmando a virgindade de Maria. Mas o que claramente aparece nesses relatos é a novidade que se desenrola diante dos olhos do homem: a de um Deus feito homem, que escolheu a forma terrestre, que escolheu o caminho da humilhação, abrindo mão de sua grandeza e divindade para alcançar o homem, aproximar-se dele e compartilhar de sua jornada terrena.
A escolha da pobreza feita por Deus, assumindo a forma corporal de uma criança pequena em Belém, é uma escolha que deixa o homem, que tem uma imagem completamente diferente do Messias, perplexo, até escandalizado.
A revelação de Deus em carne representa algo inteiramente novo. Dessa forma, o Amor do Pai se revela de maneira inconfundível. Deus deu ao homem a Luz e a revelação em seu Filho. A Luz do Natal é esta: o menino de Belém que veio libertar o homem da sombra da morte e do pecado: “o povo que andava em trevas viu uma grande luz” (Mt 4:16).
Este é o simbolismo da luz que brilha na noite escura, a luz significando vida e felicidade, que dissipa a escuridão da morte. É o fulgor do mundo celestial, uma expressão simbólica da santidade e glória de Deus que mostra a importância do momento como um encontro de Deus com os homens.
Esta luz e a extraordinária natureza do momento nos ajudam a compreender a alegria do momento, da libertação que veio por meio da Encarnação. A véspera de Natal é o momento que evoca um dos eventos mais ternos e delicados da vida de Jesus. Desde a antiguidade, a Noite representou um tempo especial e propício para revelações divinas.
E foi na noite que aconteceu a Encarnação do Filho de Deus. Neste momento preciso, quase parece que toda a vida no universo parou diante do milagre da Encarnação, para mostrar que toda a criação estava envolvida na vinda do Messias, que se tornaria o evento central na história humana.
As Sagradas Escrituras frequentemente nos apresentam o tema da paz e da quietude em relação aos eventos nos quais Deus se manifesta e age na história. A quietude representa uma condição indispensável para poder ouvir e receber adequadamente a Palavra eterna do Pai, aquela Palavra que se manifestou aqui em Belém, na quietude da caverna, e que pode renascer a cada dia nos corações daqueles dispostos a recebê-la.
Hic et nunc: Tradição Litúrgica
A liturgia em todos os Lugares Santos, incluindo Belém, é a recordação diária dos eventos da vida de Jesus Cristo, vividos e evocadas nos exatos lugares que a tradição nos transmitiu como os Lugares Santos tocados pela passagem divina do Filho de Deus.
Isso nos ajuda a compreender como a liturgia no lugar sagrado não é uma simples prática de solenidade, mas representa uma forma contínua de comemorar aquele hic et nunc (“aqui e agora”) com o qual, no caso de Belém, o Salvador se fez carne e veio habitar entre nós.
Temos evidências desse ritual desde tempos antigos. Dois dos documentos mais importantes são o Itinerarium de Egeria e o Leccionário Armênio de Jerusalém, que descrevem práticas litúrgicas nos Lugares Santos durante os séculos IV e V. Esses documentos nos fornecem informações sobre as celebrações do Natal e da Epifania, e sobre as peregrinações feitas aos diversos lugares de culto estreitamente ligados aos relatos evangélicos do nascimento do Salvador.
É claro que a celebração da Solenidade do Natal tem uma importância fundamental na vida da igreja local e para os peregrinos que chegam do mundo inteiro à Igreja da Natividade. As funções iniciais que abrem o ano litúrgico são as do primeiro domingo do Advento, celebrado com a entrada solene do Custódio da Terra Santa na Igreja da Natividade e a oração das primeiras vésperas.
Todo o período do Advento gira em torno da preparação das celebrações natalinas: a Vigília de Natal e as missas da madrugada e da manhã que, desde o século XIX, têm sido presididas pelo Patriarca de Jerusalém, antes disso sendo presididas pelo Custódio da Terra Santa.
Essas celebrações se concluem com a Epifania, na qual se celebra a manifestação de Jesus aos Magos. Quanto às festividades de Natal, também se celebram o que poderíamos considerar feriados secundários, mas ainda ligados a eventos do Novo Testamento, notadamente: os Santos Inocentes (28 de dezembro), em memória do Massacre dos Inocentes ordenado pelo rei Herodes, e a Teotokos (1 de janeiro), a festa de Maria Mãe de Deus, que exalta a figura da Virgem Maria, em cujo nome se dá à Igreja da Natividade. Junto a estas, outras festas e comemorações também são celebradas, na maioria ligadas à participação da comunidade local.
Entre as mais importantes, devemos mencionar a de Santa Catarina (24 de novembro), santa titular da igreja conventual, que por séculos foi o dia de festa que inaugurava as festividades, e a de São Jerônimo (30 de setembro), santo e Doutor da Igreja que viveu nos Lugares Santos do nascimento de Cristo.
Junto a essas celebrações, a memória de São José também é comemorada na capela que leva seu nome, assim como o Corpus Christi, dia de festa que chama atenção para a importância de Belém como berço da vinda do Pão da Vida.
Além disso, devemos notar as peregrinações ao santuário do Campo dos Pastores (25 de dezembro) e à Gruta do Leite, em memória dos eventos do Novo Testamento lembrados ali.
Natal Latino
Infelizmente, as páginas do diário de Aetéria (final do século IV) referentes às cerimônias de Natal e Epifania em Belém foram perdidas. As informações mais antigas encontram-se no Leccionário Armênio do século V, que diz que o ano litúrgico começava em 6 de janeiro com a festa da Epifania ou nascimento de nosso Senhor.
Depois temos o Livro Canônico de Jerusalém (meados do século VIII), um manuscrito encontrado no início dos anos 1900 na igreja de São Jorge em Lahil, no Cáucaso. É a tradução de um antigo ritual grego e, integrado com outro documento georgiano encontrado na Biblioteca Nacional de Paris, forma uma valiosa fonte de dados para a história dos Lugares Santos durante o período árabe, de 635 até as destruições de El-Hakim em 1009.
Quanto às cerimônias de Natal, sabemos que na véspera, após a sexta-feira, o clero e a assembleia iam em procissão ao Campo dos Pastores. Retornando a Belém, visitavam a gruta da Natividade e terminavam cantando as vésperas.
À meia-noite, começavam a ler orações e leituras. Este Livro Canônico designava o Natal em 25 de dezembro; de fato, ao final do século VI, a Igreja de Jerusalém também seguia a prática estabelecida em Roma, que fixou o Natal nessa data.
O dia 6 de janeiro era dedicado à Epifania ou manifestação de Jesus no rio Jordão.
Não há registros de ritos particulares durante o período das Cruzadas. De qualquer forma, sabe-se que o Patriarca de Jerusalém ia a Belém na véspera de Natal para conduzir a liturgia. Assim, vemos que desde o século VI até hoje, a liturgia de Natal manteve em Belém suas características fundamentais. Até 1848 (ano em que o Papa Pio IX reestabeleceu o Patriarcado Latino de Jerusalém), a liturgia de Natal em Belém era oficiada pelo Padre Custódio da Terra Santa.
Desde 1848, o Patriarca preside as cerimônias de Natal enquanto o Padre Custódio ainda lidera os ritos da Epifania.
Natal
No dia 24 de dezembro, o pároco, as autoridades da cidade e personalidades vão ao encontro do Patriarca de Jerusalém, acolhendo-o próximo ao túmulo de Raquel. Em um cortejo, vão a Belém escoltados por guardas a cavalo.
Às 13h, todos os franciscanos, os seminaristas do Patriarcado Latino e os sacerdotes que podem participar (todos em paramentos litúrgicos) recebem o Patriarca na entrada do pátio, enquanto o Padre Guardião do convento espera em frente à porta da basílica.
O Patriarca atravessa o pátio com as autoridades da cidade à sua direita (Governador, Prefeito, Comandante da Guarnição, etc.) e clérigos dispostos conforme seu posto à esquerda. Na entrada da basílica, seguindo o cerimonial prescrito, o Patriarca é recebido pelo Padre Guardião e então se despede das autoridades da cidade e entra na basílica acompanhado pelo clero. Ele imediatamente passa pela porta pequena à esquerda, atravessa o Claustro de São Jerônimo e entra em Santa Catarina, onde veste os paramentos sagrados e começa a cantar as primeiras vésperas solenes do Natal.
Às 15h30, ocorre o compline e a procissão diária, presidida solenemente pelo Padre Guardião do convento.
Em Santa Catarina, às 23h, são cantadas as matinas solenes, oficiadas pelo Patriarca. Pouco antes da meia-noite, o Patriarca começa a cantar a Missa Pontifical; o Governador, Prefeito, Comandante da Guarnição e cônsules que têm direito a participar, assistem a esta missa. Quando a Missa Pontifical termina, inicia-se uma procissão. O Patriarca carrega em seus braços a conhecida imagem do Menino Jesus. Ele é precedido pelo clero e seguido pelas autoridades da cidade, cônsules e congregação. Após contornar o claustro, entram na basílica pela porta da abside norte e descem à gruta.
Uma vez na gruta, o Patriarca coloca a imagem do Menino sobre a estrela de prata e o diácono canta o Evangelho da Natividade. Quando chega às palavras: “... envolveu-o em panos e colocou-o numa manjedoura”, ele para, envolve a imagem com os panos e a leva à manjedoura. Então, o diácono retoma a leitura do Evangelho; ao final, são cantadas antífonas e orações apropriadas. Em seguida, o Patriarca incensa a imagem do Menino, entoa o Te Deum e a procissão retorna a Santa Catarina, onde a liturgia da véspera de Natal dos cristãos chega ao fim. A imagem do Menino permanece na manjedoura até 4 de janeiro.
À meia-noite em ponto, os latinos começam a celebrar missas na gruta até às 5h. Há apenas duas interrupções: uma durante a cerimônia oficiada pelo Patriarca e outra das 5h às 6h30, período durante o qual os ortodoxos gregos celebram sua liturgia. Depois disso, as missas são celebradas continuamente até às 17h. Além disso, às 9h em Santa Catarina, um bispo auxiliar oficia uma missa pontifical. Às 16h, a comunidade franciscana faz uma peregrinação ao Campo dos Pastores. Eles param primeiro no local venerado pelos ortodoxos gregos e depois vão ao Campo dos Pastores de propriedade latina.
Natal em Belém
Epifania
Na véspera da Epifania, às 10h30, o Padre Custódio da Terra Santa entra na basílica com uma cerimônia muito semelhante à seguida para a recepção do Patriarca. No pátio, é acolhido por padres e sacerdotes que não vestem paramentos litúrgicos.
No claustro de São Jerônimo, é recebido pelo Padre Guardião do convento, entoa o Te Deum e entra na igreja seguido por todos.
Às 13h40, começam as vésperas pontificais, oficiadas pelo Padre Custódio da Terra Santa; a procissão diária inicia-se para a gruta da Natividade no início do canto do Magnificat.
Às 15h30, são cantadas as matinas solenes, oficiadas pelo Padre Guardião do convento. Depois de cantar o Te Deum, a procissão vai para a gruta; os três altares são incensados como durante as vésperas.
Da meia-noite até às 9h de 6 de janeiro, os latinos têm direito a celebrar missas continuamente na gruta, com uma breve interrupção durante a qual ortodoxos gregos e armênios têm sua liturgia.
Às 9h em Santa Catarina, é cantada a missa pontifical com o Padre Custódio da Terra Santa oficiando, à qual assistem as autoridades da cidade e cônsules, como durante a Missa do Galo.
Às 15h30, são cantadas vésperas, compline e matinas.
Por volta das 16h, realiza-se a procissão solene, com o Padre Custódio da Terra Santa oficiando. A imagem do Menino já não é a utilizada nos ritos de Natal; esta representa o Menino sentado em um trono. Quando a procissão termina, o Padre Custódio abençoa a assembleia com a imagem.
Assim, completam-se as cerimônias do Natal latino em Belém. Talvez não seja fora de lugar mencionar que os padres latinos têm o privilégio de celebrar todos os dias (com exceção de algumas festas litúrgicas) a missa votiva de Natal na gruta da Natividade, e a missa votiva de São José e a missa votiva de São José Artesão nas grutas de São Jerônimo. Esse privilégio foi reconfirmado pelo Papa Paulo VI em 1964, em memória de sua visita à Terra Santa.
Inesquecível foi a peregrinação de Paulo VI, o primeiro papa a ir a Belém. No dia 6 de janeiro, dia da Epifania, ele celebrou uma missa no altar dos Magos e depois proferiu sua famosa mensagem de paz. Como lembranças de sua visita, Paulo VI ofereceu ao Menino um presente simbólico: ouro (representado por uma rosa de ouro), incenso (representado por um turíbulo de prata do século XVIII) e mirra (contida em uma espécie de píxide). Além disso, doou à igreja os paramentos usados durante a missa, assim como o cálice, missal e todos os outros vasos sagrados utilizados no rito.
Epifania em Belém
Outras Celebrações
28 de dezembro: Santos Inocentes
1 de janeiro: Maria Mãe de Deus (na Gruta do Leite)
30 de setembro: São Jerônimo
24 de novembro: Santa Catarina
Liturgia diária em memória do Natal e Procissão Diária
O ritmo diário da vida dos frades franciscanos, custodiante desses Lugares Santos, é marcado pela animação da liturgia e pelo acolhimento dos peregrinos. Enquanto a comunidade celebra todos os dias a Eucaristia de acordo com o calendário da Igreja Universal, os peregrinos celebram neste lugar a memória do Natal.
O momento para-litúrgico celebrado todos os dias em memória do nascimento de Jesus no lugar da Natividade é a Procissão Diária para a Gruta da Natividade. Esta, como todas as procissões nos Lugares Santos, nasceu do desejo de acolher os peregrinos e conduzi-los ao lugar sagrado por um percurso preciso. Aqui é celebrada todos os dias ao meio-dia pela comunidade de frades baseada na Igreja da Natividade.
A Procissão Diária em Belém sofreu muitas alterações na forma ritual ao longo dos séculos, já que, nesse período, o culto dentro da igreja e nas estruturas adjacentes passou por inúmeras mudanças.
As evidências dos primeiros frades mencionam que no século XIV, época em que ainda tinham propriedade exclusiva da igreja, a procissão partia do altar dedicado à Virgem, localizado no meio do corredor esquerdo.
Em 1470, para evitar que os peregrinos tivessem que pagar tributos aos sarracenos, os Frades Menores abriram uma passagem conectando a Gruta da Natividade, a Gruta de São José e o que era então a Capela de Santa Catarina. Estes são apenas alguns exemplos das variações que a igreja, e portanto o trajeto da Procissão Diária, sofreu ao longo do tempo. Também é claro que algumas mudanças no ritual diário estavam ligadas a diferentes períodos históricos, assim como a dissensões internas entre latinos e gregos, estes últimos que em várias ocasiões limitaram o acesso à Gruta.
Hoje a procissão segue o itinerário abaixo, preservando vários elementos das procissões realizadas pelo Padre Bonifácio da Ráguza (século XVI) e posteriormente elaboradas pelo Padre Tomás Obicini (século XVII):
I. A procissão sempre parte do Altar de Santa Catarina com sua primeira parada, ou “estação”, no Altar da Natividade;
II. a Santa Manjedoura;
III. Altar dos Magos.
As seguintes estações, que em séculos anteriores eram percorridas em sua totalidade, hoje são escolhidas diariamente como ponto final do itinerário:
IV. Túmulo dos Inocentes;
V. Oratório de São Jerônimo;
VI. Túmulo de São Jerônimo;
VII. Túmulo de São Eusébio;
VIII. Altar de Santa Catarina.
O trajeto seguido ajuda a reviver todos os dias o momento e os lugares do nascimento e manifestação do Senhor Jesus, e os altares dedicados àqueles que foram testemunhas históricas desses fatos.
Presépio em Greccio e a tradição do presépio
Uma forma comum hoje de transmitir a memória do nascimento de Jesus é através da tradição do presépio. Acredita-se que São Francisco tenha criado o primeiro presépio da história.
A tradição hagiográfica relata, embora sem certeza histórica, que quando Francisco foi à Terra Santa, ele visitou Belém e, trazendo consigo a memória da cidade onde o Salvador nasceu, reproduziu a cena da Natividade na famosa Véspera de Natal em Greccio (1Cel 84-86).
De fato, Francisco, ansioso por tornar tangível para os fiéis a experiência do Filho de Deus, humilde e encarnado em forma humana, quis colocar em cena tal representação, como narram as biografias do santo tanto por Tomás de Celano quanto por São Boaventura.
Nesses relatos, é dito que Francisco preparou uma manjedoura com feno, fez trazer um boi e um burro, e então celebrou uma Santa Missa diante dela, diante de uma grande multidão que vinha de toda a região. Seu amor pela Solenidade do Natal e sua devoção à imagem da Natividade encontraram sua maior inspiração no Mistério da Encarnação, onde o santo reconheceu a humildade e pobreza do nascimento do Messias. Francisco viu nisso a renovação de si mesmo no sacramento da Eucaristia, onde Jesus desce todos os dias pelas mãos do sacerdote.
Os relatos pintam um quadro de grande simplicidade e ternura, em que na Véspera de Natal de 1223 Francisco preparou a celebração eucarística, pedindo auxílio a seu amigo Giovanni Velita na preparação de alguns elementos necessários para representar a cena do nascimento do Menino em Belém e, como ele mesmo disse: “ver com os olhos do corpo as dificuldades em que ele foi colocado por causa das necessidades de um recém-nascido que faltavam” (1Cel).
Chegada a Santa Noite, Francisco, junto com os frades e vários fiéis, foi ao local onde a manjedoura havia sido preparada com feno, um burro e um boi. “Algumas doces palavras” foram pregadas por Francisco, e então uma visão do Menino apareceu sobre o feno. O evento milagroso agitou os animais e comoveu os corações de muitos que se sentiram tocados pelo ocorrido. Através dessa ação, o santo quis tornar fácil para os fiéis compreenderem o Mistério da Encarnação.
A devoção, característica da espiritualidade franciscana, certamente contribuiu para o desenvolvimento da prática de representar o presépio, prática que continua até os dias atuais.
Em preparação para a Solenidade da Natividade, na véspera do Natal, na Gruta da Natividade, o episódio do Presépio de Greccio é evocado.
A Igreja da Natividade é um dos lugares mais importantes na Terra Santa para encontros entre as diferentes denominações cristãs e religiões. As imagens, a história e os eventos que a caracterizam permitem-nos falar desta igreja como um lugar simbólico do Ecumenismo.
Já no período das Cruzadas, a igreja havia sido o local de união entre duas Igrejas, Oriental e Ocidental, que haviam se dividido após o Cisma de 1054. De fato, apesar de a igreja estar sob o controle dos Cavaleiros Cruzados, representantes do Papa nesses lugares, o design iconográfico das decorações murais de mosaico foi encomendado pelo imperador bizantino e realizado por mestres orientais.
Hoje, três denominações cristãs − Católica, Ortodoxa Grega e Ortodoxa Armênia − vivem juntas na igreja, experimentando todas as dificuldades que isso implica e vivendo uma experiência de Ecumenismo diário.
Mas nossa reflexão pode ir além do aspecto Ecumênico e podemos reconhecer na Igreja da Natividade um caráter de diálogo.
As Comunidades Religiosas
A Igreja Latina
Nomeados pela Igreja Latina como os custodians dos Lugares Santos, os Franciscanos, filhos de Francisco de Assis, cuidam da Natividade em Belém desde 1347, ano em que se estabeleceram no lugar sagrado. Ao longo desse tempo, e continuando até hoje, os Franciscanos realizam serviços litúrgicos e acolhem os peregrinos.
O convento da época das Cruzadas está ao lado da igreja e contém dentro dele a Igreja de Santa Catarina, que é usada tanto para celebrar a liturgia diária quanto para a vida paroquial. Além disso, próximo ao Altar dos Magos, os Franciscanos oficiam diariamente a Celebração Eucarística.
Finalmente, todos os dias os Franciscanos animam a Procissão Diária que sai do altar da Igreja de Santa Catarina e percorre todas as etapas da Teofania.
A Igreja Ortodoxa Armênia
A Igreja Ortodoxa Armênia pertence às igrejas conhecidas como “Antigas Orientais” (descendentes das tradições Síria, Armênia e Alexandrina) e está intimamente ligada à história do povo armênio, tanto que o Patriarca Supremo, chamado de “Católico”, é considerado o “pai da pátria”.
O Patriarcado Ortodoxo Armênio em Jerusalém foi estabelecido por volta do século V. Com o tempo, a comunidade ortodoxa armênia cresceu com a chegada de imigrantes armênios, sobretudo em Jerusalém.
Em Belém, há uma comunidade de monges armênios que vivem no mosteiro adjacente à Igreja da Natividade, onde realizam sua liturgia diária e têm o direito de celebrar a Eucaristia no Altar da Natividade dentro da Gruta (compartilhando com a comunidade Ortodoxa Grega).
Entre as celebrações mais interessantes, podemos destacar a do Natal, que é comemorado em 19 de janeiro, de acordo com o antigo calendário armênio. Esta festividade celebra a “teofania” e destaca a “Epifania”, ou manifestação do Senhor em seu batismo, na véspera da qual ocorre a entrada solene do patriarca.
Ortodoxa Grega
A Igreja Ortodoxa Grega pertence ao grupo de igrejas que aceitaram o Concílio Ecumênico de Calcedônia (451). Este grupo reúne todas as Igrejas do Rito Bizantino e, geograficamente, pode ser situado na Europa Oriental.
Ela se manteve distinta de outras igrejas (Igreja Assíria do Oriente, Igreja Antiga Oriental, Católica, Anglicana e Protestante) e considera-se representante da fé autêntica e original. A prevalência de elementos gregos e de língua grega na Terra Santa permitiu à Igreja Ortodoxa, ao longo dos séculos, se identificar como Ortodoxa Grega, sendo outro fator o fato de que, por séculos, os cargos de liderança eram ocupados por patriarcas e bispos gregos.
Em Belém, os Ortodoxos Gregos administram a Igreja da Natividade e a Gruta, em conjunto com as igrejas Latina e Ortodoxa Armênia. Seu mosteiro está localizado ao sul do complexo da igreja e pode ser identificado pela sua grande torre do sino. As áreas de responsabilidade dos gregos dentro da igreja são as seguintes: o transepto sul, a área do presbitério e, dentro da Gruta da Natividade, o Altar da Natividade em cooperação com a comunidade Ortodoxa Armênia.
A festa mais importante da comunidade Ortodoxa Grega em Belém é o Natal, celebrado em 7 de janeiro, com a entrada do Patriarca.
A leste de Belém, a cerca de 2 km do centro, há uma aldeia, Beit Sahour, a casa dos vigilantes, dos observadores. Podemos alcançá-la a pé seguindo pela rua da Gruta do Leite.
Já no dia de Santa Helena havia aqui uma igreja dedicada aos Anjos que anunciaram aos pastores o nascimento do Redentor. Após vários altos e baixos no século seguinte, foram construídos um refeitório e uma escola aguardando o momento em que uma igreja também pudesse ser erguida. Enquanto isso, a liturgia ocorria primeiro em uma gruta chamada Mihwara, depois provisoriamente no refeitório.
Finalmente, em 1950, a igreja construída pelo Arq. A. Barluzzi foi consagrada e dedicada a Nossa Senhora de Fátima e a Santa Teresa de Lisieux. Os habitantes da aldeia, herdeiros da generosidade de Boaz, cooperaram com grande entusiasmo. O belo pórtico da igreja possui três arcos ogivais; a parte superior da fachada é coroada por uma sequência de pequenos arcos esbeltos que continuam também nas paredes laterais.
O interior é dividido em uma nave e dois corredores por duas filas de quatro colunas cada. Os fustes das colunas, de pedra vermelha pálida do país, à primeira vista parecem um pouco baixos. Para torná-los visualmente menos massivos, o arquiteto recorreu a um simples expediente óptico: os diversos tambores, da base ao capitel, têm altura decrescente. Os arcos ogivais muito estreitos criam a ilusão de que o interior é mais longo do que realmente é. Os capitéis, massivos, mas não pesados, são bastante originais.
O altar principal merece menção especial. É uma verdadeira joia, um crédito à escultura palestina. Apesar de seu tamanho, parece mais uma miniatura de marfim do que pedra talhada. O frontal e a parte superior do altar são decorados com 15 painéis representando várias cenas, desde a Anunciação até a chegada da Sagrada Família ao Egito.
Ao mesmo nível do tabernáculo há quatro pequenas estátuas (os Evangelistas), enquanto na parte superior os 12 Apóstolos cercam a imagem de Cristo. Os autores desta obra foram Yssa Zmeir, de Belém, e Abdullah Haron, de Beit Sahour. Beit Sahour situa-se no meio dos chamados “campos de Boaz”. Na gloriosa noite da Natividade, os pastores mantinham vigília em um desses campos. “O anjo lhes disse: ‘Não tenham medo! Venho anunciar-lhes boas novas – notícias de grande alegria, para todo o povo. Hoje, na cidade de Davi, nasceu para vocês um Salvador, o Messias e Senhor”’ (Lc. 2,10-11).
Embora as palavras do Evangelho não localizem exatamente o lugar onde os Anjos apareceram, a antiga tradição o fixou em Siyar el-Ghanam, o campo dos pastores, não muito longe de Beit Sahour.
As escavações realizadas pelo Pe. Virgil Corbo OFM em 1951-52 foram mais exaustivas do que as anteriores (C. Guarmani, 1859) e as ruínas puderam ser datadas com precisão. Os vestígios de vida humana encontrados em cavernas, remontando aos tempos herodianos e romanos, e os restos de prensas de azeite muito antigas encontradas sob as fundações de dois mosteiros, demonstram além de qualquer dúvida que o lugar era habitado na época em que Jesus nasceu em Belém. O Pe. Corbo reuniu elementos suficientes para corroborar a hipótese de que uma pequena comunidade vivia aqui.
Além disso, em Siyar el Ghanam existem os restos de uma torre de vigia, agora incorporada ao hospício franciscano. Depois que Raquel morreu, “Israel prosseguiu e acampou além de Migdal Eder” (Gn 35,21), além da “torre do rebanho”. Os Targumim localizaram esta torre a leste de Belém, especificando que o Messias seria anunciado ali.
A tradição talmúdica apontava para a mesma região, e a tradição cristã, após o nascimento de nosso Senhor, aceitou e manteve a localização. São Jerônimo vê a torre a “quase mil pés (romanos) de Belém” e acrescenta que naquele lugar os Anjos haviam anunciado aos pastores o nascimento do Redentor. O que resta do assentamento agrícola e da torre de vigia explica muito bem uma expressão do texto grego original de Lucas.
Segundo os exegetas mais qualificados (entre os quais M. J. Lagrange), o verbo usado por Lucas não significa que os pastores passaram a noite ao relento, mas sim que “viviam nos campos”.
As escavações retraçaram a existência de dois mosteiros, um do século IV-V, outro do século VI. Do primeiro, existem as fundações da igreja e de várias paredes. No século VI, a igreja foi demolida e reconstruída no mesmo local, com a abside ligeiramente deslocada para o leste.
Do segundo mosteiro temos, de forma similar, partes da abside e paredes de várias salas. O Pe. Corbo acredita que muitas pedras do edifício do século IV, reutilizadas na abside da igreja do século VI, provêm da Igreja da Natividade de Constantino.
O local onde os mosteiros estavam não é o melhor desta área, pois não é plano. O fato de a segunda igreja ter sido construída exatamente sobre a anterior confirma ainda mais que uma lembrança especial estava ligada a este sítio.
O mosteiro do século VI foi destruído no século VIII pelos muçulmanos, que tentaram até apagar os sinais cristãos, talhando e raspando as pedras nas quais estavam gravados. Entre os cômodos do segundo mosteiro, alguns foram identificados como usados para fins particulares: portaria, padaria com grande pedra de moinho de basalto, refeitório, prensas de azeite, adega em caverna, estábulo. Também foram revelados um sistema de canalização e várias cisternas.
O santuário atual foi construído em 1953, segundo o projeto do Arq. A. Barluzzi. Tanto a colocação da pedra fundamental quanto a dedicação ocorreram no dia de Natal.
O santuário está sobre uma grande rocha dominando as ruínas. Representa um acampamento beduíno: um polígono com 5 lados retos e 5 lados projetados curvados para o centro, em forma de tendas. A luz inunda o interior através da cúpula de vidro-cimento, lembrando a luz muito forte que apareceu aos pastores. O alto-relevo de bronze no lintel da porta foi projetado pelo escultor D. Cambellotti, que criou também o portal, as quatro estátuas de bronze sustentando o altar principal no meio da capela, castiçais e cruzes. O Arq. U. Noni afrescou as três absides e o escultor A. Minghetti cuidou da execução dos dez anjos em estuque da cúpula.
Em Belém, a área sagrada em torno da Gruta da Natividade tem sido o ponto focal de toda a tradição. No entanto, em Belém, uma pequena Capela tem sido por longos séculos um local de devoção.
A "Gruta do Leite", sobre a qual hoje se ergue uma pequena Capela, é frequentemente visitada por mulheres locais, cristãs e muçulmanas igualmente, para pedir a intercessão de Maria, mãe de Jesus. Uma lenda recorda como Maria derramou um pouco de leite ao amamentar o menino Jesus, e esta é a razão para a pedra “branca” da caverna.
Uma tradição que remonta ao século VII localizou neste sítio o lugar de sepultamento das vítimas inocentes mortas por Herodes, o Grande, após o nascimento de Jesus. Em 2007, foi concluída a restauração da Caverna, que limpou as paredes e devolveu a luz original.
A nova igreja, construída sobre a antiga caverna, foi projetada pelos arquitetos Louis Lions e Chiara Rovati, obra realizada com o apoio dos fiéis eslovacos e italianos.
A Gruta do Leite é flanqueada por um mosteiro confiado às irmãs das Adoradoras Perpétuas do Santíssimo Sacramento. Um corredor interno conecta a caverna à Capela do Santíssimo Sacramento e à Igreja Superior: a Adoração Eucarística continua durante todo o dia, e é possível a todos os peregrinos permanecer ali em oração silenciosa.
Seguindo ao longo da mesma rua – em cujos dois lados existem vários cemitérios cristãos modernos pertencentes a diversas denominações – após uma curta caminhada, vemos uma capela à nossa direita: é a ‘Casa de São José’.
Após o nascimento do Menino, a Sagrada Família permaneceu em Belém por algum tempo. Jesus foi circuncidado e, quando o tempo prescrito pela Lei de Moisés havia passado, Nossa Senhora e São José, com o Menino, subiram a Jerusalém para a Purificação (Lc 2,22). Os Reis Magos encontraram Jesus em uma casa (Mt 2,11).
O Evangelho afirma que a Sagrada Família viveu em Belém após o nascimento de Jesus; é provável que tenham encontrado abrigo em algum lugar desta área. A transição da gruta para a casa não é uma contradição: São José era natural de Belém e poderia ter relações e amigos aqui que, cientes de seu aperto, o ajudaram.
Além disso, São José era artesão: podia trabalhar e ganhar a vida. Já durante a Idade Média, foram feitas tentativas de localizar em Belém uma memória específica de São José. As pesquisas eram sempre feitas na encosta oriental da colina, entre a Gruta do Leite e o Campo dos Pastores, provavelmente seguindo uma antiga tradição local.
Segundo dois peregrinos florentinos (George Gucci e Leonard Frescobaldi), o local foi finalmente localizado na segunda metade do século XIV. A capela moderna (1890) assenta tanto sobre a rocha quanto sobre construções mencionadas por muitos peregrinos. Ao pé da ábside, podemos ver um pedaço de rocha e, atrás do altar, um bloco provavelmente pertencente ao altar primitivo.
A capela que comemora a ‘Casa de São José’ foi doada pela Sra. E. Audebert. Para evitar problemas com as autoridades governamentais, o edifício recebeu deliberadamente uma aparência modesta, como se fosse a casa de um vigia. Em 20 de março de 1893, a pequena igreja foi solenemente consagrada pelo Padre Custos da Terra Santa, Fr. Giacomo Ghezzi.
O edifício está localizado na aldeia de Artas, situada na periferia de Belém e bem próximo às famosas Piscinas de Salomão. A localização e a área circundante são deslumbrantes, particularmente durante os meses da primavera, quando as montanhas ao redor estão ricamente verdes e as oliveiras florescendo.
Uma pitoresca ponte de pedra que se estende sobre o verdejante Vale de Artas leva ao Convento do Hortus Conclusus, que deriva seu nome do jardim fechado do Cântico dos Cânticos. O convento é habitado por uma ordem italiana de freiras, estabelecida na América Latina.
Foi construído há mais de cem anos (em 1901) por engenheiros de Belém da família Morcos, a pedido de Mons. Soler, Arcebispo de Montevidéu, Uruguai.
Cisternas de Davi
Na estrada que sai de Belém, em frente à igreja Siríaca Católica, há três grandes cisternas ainda em uso, escavadas na rocha: são as Cisternas de Davi, em árabe Biar Dawd.
A Bíblia fala delas em 2 Sm 23,15-17: “Então Davi teve uma grande sede e disse: ‘Ah! Quem me dera que alguém me desse de beber água da cisterna que está junto ao portão de Belém!’. Então os três guerreiros romperam o acampamento filisteu e tiraram água da cisterna que está junto ao portão de Belém. Mas, quando a trouxeram a Davi, ele recusou-se a bebê-la, e em vez disso a derramou diante do Senhor, dizendo: ‘O Senhor me livre de fazer isto! Posso eu beber o sangue destes homens que arriscaram suas vidas?’ Assim, recusou-se a bebê-la.”
Além das cisternas, existem também vestígios de uma igreja e de um cemitério subterrâneo. Em 1895, foi encontrado um fragmento de mosaico de piso pertencente à igreja; podia-se ver uma inscrição com os versículos 19 e 20 do Salmo 117: “Abre-me as portas da justiça; entrarei por elas e louvarei o Senhor. Esta porta é do Senhor, os justos nela entrarão”.
Atualmente, o mosaico encontra-se enterrado sob um campo cultivado e novas pesquisas são impossíveis. Quando foi encontrado, alguém pensou que pertencia ao mausoléu de Davi, cujos vestígios haviam se perdido desde o século VI.
Embora não haja evidência arqueológica, parece que o túmulo de Davi deveria estar localizado, segundo a tradição judaica, no Monte Sião. Sob a igreja existe um cemitério subterrâneo, formado por galerias com 18 arcosólios, cada um deles com 2 a 6 sarcófagos.
Em 1962, a Custódia da Terra Santa realizou alguns trabalhos (Ir. Michelangelo Tizzani), durante os quais catacumbas e arcosólios foram restaurados. As escavações trouxeram à luz muitos fragmentos de vasos (século IV) e inscrições nas paredes (séculos IV-VI).
O grafite mais significativo é uma cruz constantiniana (século IV) gravada na rocha no início do cemitério, que afirma a natureza cristã do local de sepultamento.
Piscina de Salomão
A fortaleza de Qala’atal-Burak em Belém é geralmente considerada de origem turca, mas é provável que a estrutura seja muito mais antiga. A localização do castelo permitia que ele guardasse as chamadas Piscinas de Salomão de Belém, na estrada que leva a Artas.
Os três reservatórios representavam uma das principais fontes de água para Jerusalém, por meio de um aqueduto que terminava no Templo. Estas piscinas definitivamente existiam na época de Herodes e podem ter até dois séculos de idade.
Os reservatórios têm formato aproximadamente retangular e estão alinhados com a fortaleza na direção leste-oeste; no lado nordeste há um corredor que leva a uma câmara onde a água surge de uma fonte natural, enquanto ao redor sobrevivem inúmeros vestígios de canais que coletavam água da superfície das colinas próximas.
A água era conduzida ao aqueduto superior através de um tubo cuja idade é desconhecida; o canal de água desaparece em um túnel em um local marcado no solo por uma série de nove poços. Na saída do túnel, o canal de água continua em direção ao Wadi Bijar (Vale dos Poços) antes de desaparecer em um novo túnel marcado na superfície por cerca de trinta poços que ainda são usados pelos agricultores locais. Este era, de fato, um sistema de água sofisticado, projetado para coletar água adicional do aquífero, reproduzindo um sistema de qanat.
Restos do aqueduto inferior sobrevivem perto das ruínas da estrutura bizantina conhecida como Deir al-Banat (Convento das Donzelas). Em 1998, a situação parecia ter piorado em relação à encontrada cinco anos antes, devido ao estado de abandono das piscinas.
Os remanescentes do primeiro aqueduto situavam-se numa caverna abandonada a cerca de 400 m da encruzilhada para Hebron; os remanescentes do segundo, também não muito longe do túmulo de Raquel, atrás das casas, no triângulo formado pelo bifurcar da estrada.
Finalmente, encontramos-nos em frente ao túmulo de Raquel, Qubbet Rahil, imediatamente ao norte da bifurcação para Hebron. “Assim morreu Raquel; e foi sepultada na estrada para Efrata, isto é, Belém. Jacó ergueu uma pedra memorial sobre o seu túmulo, e o mesmo monumento marca o túmulo de Raquel até hoje” (Gn 35,19-20).
Os primeiros testemunhos falam de um monumento formado por uma simples pirâmide, que lembrava o nefes dos túmulos judaicos. Mais tarde (1165), doze pedras foram acrescentadas, em memória dos doze filhos de Jacó; no entanto, algumas crônicas falam de apenas onze pedras: a pedra de Benjamim teria faltado. Em tempos bizantinos e provavelmente também mais tarde, o túmulo de Raquel deve ter sido transformado em um lugar de culto cristão.
O Lecionário de Jerusalém (sécs. V-VIII) registra duas comemorações litúrgicas oficiais (20 de fevereiro e 18 de julho). O Calendário Geórgio-Palestino (segundo o Código Sinaiticus 34, do séc. X) refere-se claramente a uma ‘Igreja de Raquel’ ao falar das mesmas comemorações.
No século XIV, o túmulo foi embelezado e um imponente sarcófago com topo convexo foi adicionado. Fr. Amico nos deixou um desenho onde vemos o cenotáfio no meio de uma capela. Nas quatro paredes laterais havia arcos. Estes foram fechados por Mohammed Pasha de Jerusalém (1560), que, além disso, substituiu a pirâmide por uma cúpula.
No século XIX, Moses Montefiore adicionou dois cômodos ao vestíbulo quadrado primitivo, dando assim ao túmulo a aparência que ainda mantém hoje. Na verdade, mais do que de um túmulo, deveria falar-se de um weli, monumento funerário muçulmano construído para lembrar um santo ou uma pessoa notável. Embora judeus, cristãos e muçulmanos venerem a memória de Raquel aqui, muitas dúvidas surgem quanto à autenticidade do local.
São Jerônimo foi o primeiro a levantá-las; ele expressou a ideia de que este seria o túmulo construído para Arquelau, filho de Herodes, o Grande, tetrarca da Judeia. Arquelau, contudo, morreu em Vienne (sudeste da França) e não foi trasladado para cá. O tema foi examinado repetidas vezes; recentemente, Fr. G. Lombardi OFM levantou-o mais uma vez.
Após analisar cuidadosamente os textos bíblicos referentes a Efrata, ele chegou à conclusão de que o túmulo de Raquel fica próximo a Hizmeh, ao norte de Jerusalém, onde existem cinco monumentos sepulcrais conhecidos pelo nome de ‘Túmulos dos Filhos de Israel’. Perto do túmulo de Raquel, outras quatro mulheres do mesmo clã deveriam estar sepultadas. Em qualquer caso, não se pode descartar a hipótese de que o túmulo de Arquelau tenha sido, na verdade, construído não muito longe do túmulo de Raquel e que a tradição tenha unido as duas memórias.
Hoje, o túmulo está localizado próximo ao muro que divide o território israelense do palestino e só pode ser visitado com permissão.
Horário de abertura do Santuário
Igreja da Natividade
6:30 – 19:30 (verão)
5:30 – 18:00 (inverno)
Domingo de manhã a Gruta está fechada
Santa Catarina
6:00 – 19:00 (verão)
5:30 – 18:00 (inverno)
Campos dos Pastores
8:00 – 17:00 - Domingo: 8:00 – 11:45 / 14:00 – 17:00 (verão)
8:00 – 17:00 - Domingo: 8:00 – 11:45 / 14:00 – 17:00 (inverno)
Gruta do Leite
8:00 – 17:45 - Domingo: 8:00 – 11:45 / 14:00 – 17:45 (verão)
8:00 – 16:45 - Domingo: 8:00 – 11:45 / 14:00 – 16:45 (inverno)
Santa Missa:
A Santa Missa pode ser celebrada na Gruta da Natividade, mediante reserva prévia no Escritório dos Peregrinos Franciscanos – FPO
Horários das Missas
Igreja Paroquial de Santa Catarina
Domingo:
6:30, Italiano
7:30, Árabe
9:00, Árabe
11:00, Árabe
Dias de semana:
6:30, Italiano
7:00, Árabe
Sábado:
16:30, Árabe (inverno)
18:30, Árabe (verão)
Capela de São Francisco
Quarta-feira:
16:30, Árabe (inverno)
17:30, Árabe (verão)
Gruta da Natividade – Altar dos Magos:
Domingo:
5:00, Italiano (inverno)
6:00, Italiano (verão)
8:30, Italiano (inverno)
9:30, Italiano (verão)
Dias de semana:
5:00, Italiano (inverno)
6:00, Italiano (verão)
7:30, Italiano (inverno)
8:30, Italiano (verão)
Festas e Celebrações durante o ano:
Natividade do Senhor: 25 de dezembro
Santos Inocentes: 28 de dezembro
Maria, Mãe de Deus − Theotokos: 1 de janeiro
Epifania: 6 de janeiro
Santa Catarina: 25 de novembro
São Jerônimo: 30 de setembro
Reservas para Missas e Contatos
Reservas para Missas para sacerdotes e grupos católicos, certificados para peregrinações na Terra Santa:
Escritório dos Peregrinos Franciscanos – FPO
Tel.: +972 2 6272697
E-mail: fpo@cicts.org
Para informações:
Centro de Informação Cristã – CIC
(dentro do Portão de Jaffa, em frente à Cidadela)
Tel.: +972 2 6272692
Fax: +972 2 6286417
E-mail: cicinfo@cicts.org
Contatos
Belém − Convento Franciscano
Convento Santa Catarina “ad Nativitem”
P.O.B. 45
Belém
AUTORIDADE PALESTINA
Tel.:
+970 02 2742425
+970 02 2743084
Fax:
+970 02 2776171 (convento)
+970 02 2762697 (sacristia)
Belém − Paróquia
Praça do Presépio - P.O.B. 45
Belém
AUTORIDADE PALESTINA
Tel.: +970 02 274.33.72
Fax: +970 02 274.01.03
E-mail: parish.bethlehem@custodia.org
Alojamento:
Os peregrinos são acolhidos pelos frades franciscanos que gerem a Casa Nova para Peregrinos e o Orient Palace Hotel. Estas instalações têm uma longa tradição de hospitalidade. Os contatos são:
Casa Nova para Peregrinos
P.O.B. 996, Belém, Autoridade Palestina
Tel.: +970 2 27439.81
Tel.: +970 2 27439.84
Tel.: +970 2 27656.60
Tel.: +970 2 2765661
Fax: +970 2 2743540
E-mail: info@casanovapalace.com
Orient Palace Hotel
P.O.B. 996, Belém, Autoridade Palestina
Tel.: +970 2 27427.98
Fax: +970 2 27415.62
E-mail: info@casanovapalace.com