Sobre a Edícula do Santo Sepulcro, um quadro retorna ao seu posto

No dia 23 de setembro de 2013, Maurizio Canesso, galerista e especialista de arte religiosa italiana do XV ao XVIII século, fez uma viagem de estudos a Jerusalém, com o objetivo de fazer restaurar certo número de obras de arte da Custódia da Terra Santa.
Durante as viagens anteriores à Terra Santa, seu olho clínico detetara várias obras. Desta vez, estava acompanhado pelo professor Nicola Spinosa, diretor do museu de Capodimonte (Nápoles, Itália). Ambos, pendurados sobre uma escada, colocada diante do Santo Sepulcro vazio de Jesus, à luz de uma lâmpada elétrica, examinaram de perto o quadro que domina a Edícula. Uma pintura a óleo de 1,51 por 1,42 cm.
A tela está ali, como os arquivos da Custódia testemunham, desde antes de 1808, data do grande incêndio que devastou parte da Basílica da Ressurreição. Restaurado em Malta, em 1860, o quadro sofreu novos danos causados pelo tempo e ambiente. A umidade da igreja e a poeira, mas sobretudo a fumaça das velas e das lâmpadas de óleo dos ortodoxos, enegreceram-na de novo.
Bastaram poucos instantes ao professor Spinosa para identificar, com voz entusiasta que se tratava de «um De Matteis!» Paolo De Matteis (1662-1728), formado em Nápoles, trabalhou a serviço do Vice-Rei espanhol de Nápoles. E, segundo o professor Spinosa, trata-se certamente do quadro que inspirou o baixo-relevo em prata, que se encontra na capela das Aparições, ao lado da sacristia.
Uma decisão foi tomada: se o Status Quo – que rege o Santo Sepulcro - permitir, a obra deverá ser tirada a fim de ser restaurada. O Status Quo permitiu. O Escritório Técnico da Custódia encarregou-se, algumas semanas após, de substituir o quadro por uma foto sobre tela. Na verdade, para o Status Quo, o espaço não pode permanecer vazio.
No sábado, dia 22 de novembro de 2014, os peregrinos, que se haviam encerrado no Santo Sepulcro na esperança de rezar tranquilamente em silêncio na tumba vazia de Jesus, ficaram surpresos. Naquela noite, aproveitando o breve fechamento semanal (1), o Escritório Técnico da Custódia, em acordo com as outras confissões cristãs, recolocou o De Matteis em seu lugar.
Isso aconteceu um ano depois de ser retirada. Pois durante três meses, a tela esteve exposta em Lugano, por iniciativa de M. Canesso, junto a outros quadros, entre os quais o baixo-relevo do Santo Sepulcro e foi admirada pelos visitantes na exposição do Tesouro do Santo Sepulcro, realizada no Castelo de Versailles.
Agora a tela retornou à sua «casa», retomando sua tarefa de nos recordar que o túmulo está vazio, pois Cristo ressuscitou!
Lembrando a primeira experiência, desta vez foi instalado um andaime. Com luvas brancas os operários da Custódia manejaram o quadro sob o olhar de Fr. Sergey Loktionov e sob a direção de Issa Shaheen. A fim de preservar o trabalho de restauração, realizado em Paris no atelier de Serge Tiers, de agora em diante a tela está protegida por chapa de vidro especial e, atrás, por chapa de polipropileno alveolar, que possibilita ao quadro respirar sem pegar poeira.
Um monge grego ortodoxo ajudou. A representação do Espírito Santo, pertencente à sua Igreja, foi fixada na fachada para impedir ser mexida. Ele a desmontou e montou de novo. Coptos e Armênios passam seu tempo observando o que se fazia. Alguns peregrinos foram ao Calvário para achar um pouco de silêncio, outros permaneceram olhando, felizes, esse fragmento da história da basílica. Elena sorri ao ver essa vida «profana» do edifício e túmulo, alegrando-se por ver as diferentes confissões trabalhando em conjunto.
Os meios de comunicação da Custódia documentaram em vídeo e foto o evento, que será partilhado com todos os que tornaram possível a realização do trabalho, aos quais a Custódia agradece de coração.
MAB

1. Cada sábado as portas do Santo Sepulcro são fechadas à mesma hora (19h, no inverno) e reabrem pelas 23h, permanecendo abertas até domingo de tarde. Certo número de peregrinos – que devem se inscrever antes com o secretário de seu rito – pode permanecer na basílica durante essas horas de calma única, dedicadas à oração silenciosa, antes do início dos ofícios em vários ritos, que se sucedem durante toda a noite.